Produção de leite, alimentos, cosméticos e colágeno, associada à reprodução e ao melhoramento genético, amplia potencial de uma cadeia produtiva historicamente ligada ao semiárido

Por Redação

Jumento ganha novos usos e movimenta economia no Nordeste
Asininos – Foto: Divulgação

Durante séculos, o jumento esteve associado ao transporte de pessoas, água, alimentos e mercadorias e ao trabalho no campo. Agora, esse animal historicamente ligado ao desenvolvimento do Nordeste começa a ocupar um novo espaço econômico. A estruturação da pecuária asinina reúne possibilidades que vão da criação e reprodução à produção de leite, alimentos, cosméticos, carne, colágeno e material genético. Agregando valor a diferentes etapas da cadeia.

Para o zootecnista e administrador agropecuário Alex Bastos, essa diversificação representa uma mudança importante na forma de enxergar a espécie. Em vez de uma atividade baseada em um único produto, a tendência é avançar para um sistema integrado, no qual criação, genética, reprodução e aproveitamento industrial se complementam.

O jumento precisa ser visto como um animal de produção, com diferentes aptidões e possibilidades econômicas. Quando organizamos a criação, investimos em genética e desenvolvemos produtos de maior valor agregado, criamos condições para uma cadeia muito mais ampla, capaz de gerar renda e novas oportunidades para o produtor“, afirma.

Leite de jumenta abre novos mercados

Leite de Jumenta – Foto: Divulgação

Um dos segmentos que mais despertam interesse da pesquisa internacional é o leite de jumenta. Estudos recentes apontam características nutricionais e a presença de compostos bioativos que vêm estimulando pesquisas sobre sua utilização como alimento funcional e matéria-prima para diferentes produtos. Pesquisadores já estudam aplicações em bebidas fermentadas, iogurtes, queijos, sorvetes e outros derivados, abrindo novas possibilidades para a indústria de alimentos.

O pesquisador Gustavo Ferrer, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Destaca que o desenvolvimento desse mercado está associado também ao avanço da pesquisa aplicada, envolvendo nutrição, manejo, produtividade e seleção dos animais. A integração entre conhecimento científico e produção é fundamental para identificar diferentes aptidões e aumentar a eficiência dos rebanhos.

Outra frente de agregação de valor que já se tornou realidade comercial é a indústria de cosméticos. Especialmente na Europa, empresas utilizam o leite de jumenta na fabricação de sabonetes, cremes faciais e corporais, shampoos, máscaras e produtos anti-idade. Empresas como a francesa Ém’ane e a belga Naturâne trabalham com modelos que integram a criação dos animais, a produção do leite e sua transformação em cosméticos, enquanto marcas como a francesa La Maison du Savon de Marseille e a italiana Okyroe mantêm diferentes produtos formulados com leite de jumenta.

Genética e reprodução ampliam o potencial da criação de jumento

Genética Asinina – Foto: Divulgação

A experiência europeia demonstra, na prática, como uma matéria-prima de origem animal pode alcançar mercados especializados e de maior valor agregado, ampliando as possibilidades econômicas de toda a cadeia. Além disso, pesquisas científicas vêm investigando propriedades e componentes do leite de jumenta relacionados à barreira cutânea, à pigmentação e ao fotoenvelhecimento, o que abre novas perspectivas para o desenvolvimento de produtos.

Além disso, a reprodução animal é outro elo importante desse novo cenário. Técnicas de seleção, conservação de material genético e reprodução assistida podem contribuir para a formação de rebanhos direcionados a diferentes finalidades produtivas. Nesse sentido, tecnologias como a Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide (ICSI) integram esse conjunto de ferramentas voltadas ao melhoramento e à conservação genética. Na prática, isso significa avançar de uma lógica baseada apenas na disponibilidade de animais para uma pecuária planejada, com seleção de características e acompanhamento técnico.

Por sua vez, para Alex Bastos, esse processo é especialmente relevante para o semiárido, onde os asininos demonstraram grande capacidade de adaptação às condições ambientais ao longo de séculos. Dessa forma, a criação organizada pode transformar essa característica em vantagem produtiva e estimular a participação de pequenos e médios produtores nos diferentes elos da cadeia.

Diversificação amplia o mercado dos asininos

Asininos – Foto: Divulgação

Carne e colágeno também integram esse modelo. Além disso, a demanda internacional, especialmente asiática, abre possibilidades para o aproveitamento desses produtos dentro de uma cadeia estruturada e submetida às normas sanitárias.

Nesse contexto, mais do que diversificar produtos, a estruturação da pecuária asinina cria a possibilidade de agregar valor em diferentes etapas: da seleção genética e do nascimento do animal à produção primária, à pesquisa, ao processamento industrial e, por fim, à chegada de produtos especializados ao consumidor.

Dessa forma, a perspectiva é construir uma cadeia em que nada seja visto isoladamente. “Genética, reprodução, leite, alimentos, cosméticos, carne e colágeno podem fazer parte de um mesmo ambiente produtivo. Isso agrega valor ao animal e cria novas possibilidades econômicas para regiões do Nordeste que possuem uma relação histórica com os asininos”, conclui Alex Bastos.

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