Empreendedora transforma leite produzido por suas próprias jumentas em cosméticos; mercado já estabelecido na Europa reforça possibilidades de agregação de valor à criação de asininos

Leite de jumenta ganha espaço na cosmética e abre oportunidades para produtores do Nordeste

Divulgação – Foto: Feld Esel

Uma experiência familiar levou a empresária chilena Paula Saez a descobrir o leite de jumenta e, a partir dele, criar um negócio que hoje produz cremes, sabonetes, shampoo e condicionador. No sul do Chile, a Feld Esel utiliza leite obtido de criação própria para desenvolver cosméticos e vem conquistando consumidores para uma matéria-prima ainda pouco conhecida no país. A experiência se soma a um mercado já explorado há anos na Europa e aponta possibilidades também para o Brasil, especialmente no Nordeste, onde se concentra a maior parte dos asininos do país e a diversificação dos usos desses animais pode abrir novas alternativas de renda no semiárido.

Divulgação – Foto: Feld Esel

A história começou quando uma alergia alimentar do filho fez Paula conhecer o leite de jumenta e pesquisar suas características e diferentes possibilidades de utilização. O interesse inicial acabou se transformando em empreendimento. “Quanto mais eu aprendia, mais me surpreendia: um produto natural, ainda pouco conhecido e com enorme potencial. Foi daí que nasceu minha paixão por levar o leite de jumenta do campo para a cosmética”, conta Paula.

Que esteve recentemente no Brasil participando da Expointer, feira agropecuária realizada em Esteio, Rio Grande do Sul. Atualmente, ela mantém seis jumentas, realiza a ordenha na própria criação e encaminha a matéria-prima para a fabricação dos produtos da Feld Esel.

As pessoas não conheciam o leite de jumenta

Divulgação – Foto: Feld Esel

O negócio vem crescendo à medida que os consumidores conhecem os cosméticos. “As pessoas não conheciam o leite de jumenta, mas a aceitação tem sido muito boa. Os clientes compram uma vez e depois voltam a comprar”, afirma Paula. Segundo a empresária, os consumidores destacam principalmente a hidratação e a elasticidade da pele, além da proximidade e do contato direto mantido pela marca com seus clientes.

A experiência chilena não é isolada. Na Europa, por sua vez, o leite de jumenta já integra linhas comerciais de cremes faciais e corporais, sabonetes, shampoos, máscaras e hidratantes. Além disso, na França, a Ém’ane mantém criação de jumentas leiteiras e utiliza leite fresco em seus produtos, com formulações que chegam a 10% em alguns cosméticos e 15% nos sabonetes. Da mesma forma, na Bélgica, a Naturâne também utiliza leite proveniente de criação própria. Enquanto isso, empresas da Itália e de outros países europeus ampliam um mercado que conecta, em diferentes modelos, a criação dos animais à fabricação de produtos de maior valor agregado.

Do mercado internacional ao semiárido brasileiro

Divulgação – Foto: Feld Esel

A ciência também acompanha o interesse comercial. O leite de jumenta contém ácidos graxos, vitaminas e aminoácidos, entre outros componentes que vêm sendo estudados para aplicações cosméticas. Pesquisas experimentais investigam seu uso em formulações destinadas à hidratação e à proteção da pele. Além de possíveis aplicações relacionadas à barreira cutânea e ao fotoenvelhecimento. A existência simultânea de pesquisas sobre a matéria-prima e de produtos já comercializados em diferentes países amplia o interesse por esse segmento.

Para o zootecnista e administrador agropecuário Alex Bastos, essas experiências oferecem referências importantes para o Nordeste brasileiro. Historicamente ligados ao trabalho e ao transporte no semiárido, os jumentos também podem desempenhar diferentes funções produtivas.
. “A produção de leite abre mais uma possibilidade dentro de uma cadeia que pode envolver criação, seleção genética, reprodução e produtos de maior valor agregado. Para o semiárido, isso pode significar diversificação da atividade e novas oportunidades de renda para o produtor”, afirma.

Divulgação – Foto: Feld Esel

A própria escala da Feld Esel ajuda a mostrar uma possibilidade para pequenos empreendedores. Nesse sentido, com seis jumentas, Paula reúne criação, obtenção da matéria-prima, fabricação e comercialização dos cosméticos. No entanto, para que modelos semelhantes avancem no Brasil, são necessários manejo adequado, seleção de animais com aptidão leiteira, assistência técnica, cuidados sanitários e atendimento à regulamentação brasileira. Além disso, experiências como a chilena, somadas a um mercado internacional já existente, apontam um caminho para que o Nordeste agregue valor a um animal historicamente ligado à região. Dessa forma, o leite de jumenta pode se transformar em matéria-prima para novos negócios e, consequentemente, contribuir para a geração de renda no campo.

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