Bahia pode ter 1,2 mil mortes associadas ao calor do Super El Niño, projeção do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago aponta o estado entre os mais afetados do país.

Imagem ilustrativa – Foto: Reprodução Jornal Atualize

Enquanto a população da Ilha se prepara para um período de maior calor e aumento do número de visitantes durante o veraneio, o Oceano Pacífico também apresenta um sinal de alerta. Dados preliminares de temperatura da superfície do mar (TSM) monitorada pela NOAA apontam que, pela primeira vez desde 1981, a TSM diária na região Niño 3.4 superou 30°C, tendo sido registrada uma média de 30,06°C na última segunda-feira (5).

O valor representa cerca de 3,4°C acima da média histórica para o período, indicando um aquecimento excepcional do oceano e reforçando a necessidade de acompanhar a evolução do El Niño e seus possíveis impactos sobre o clima nos próximos meses.

No Brasil, a projeção chega a 13,3 mil mortes adicionais associadas ao calor provocado pelo fenômeno. Em todo o mundo, o estudo estima até 451 mil mortes adicionais entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação com o que ocorreria em um ano normal.

As previsões para Bahia

Imagem ilustrativa – Foto: Reprodução Jornal Atualize

A Bahia está entre os estados brasileiros que podem registrar o maior número de mortes adicionais associadas ao calor extremo durante o atual episódio de El Niño. Um estudo do Laboratório de Impacto Climático, ligado à Universidade de Chicago, estima cerca de 1,2 mil mortes adicionais no estado durante o período analisado pelos pesquisadores.

Segundo os pesquisadores, o número de dias de calor extremo pode aumentar cerca de 44% em relação a um ano normal. O período de maior atenção para o Brasil deve ocorrer durante o verão, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.

O levantamento coloca a Bahia ao lado do Amazonas entre os estados com estimativa de aproximadamente 1,2 mil mortes adicionais. O Pará aparece com cerca de 2,3 mil e o Maranhão, com 1,3 mil.

É importante esclarecer que os números representam uma projeção científica, e não uma previsão de que essas mortes necessariamente acontecerão.

El Niño pode elevar preços de legumes e verduras

Foto: Gilsimara Cardoso

Os efeitos do El Niño também serão sentidos no bolso do consumidor. O aumento das temperaturas e a irregularidade das chuvas podem prejudicar a produção de legumes, verduras e outras hortaliças, reduzindo a oferta e elevando os custos no campo.

Com a necessidade de maior irrigação e possíveis perdas nas lavouras, produtores podem repassar parte desses custos ao longo da cadeia de comercialização. O resultado pode ser a alta dos preços nos mercados e supermercados, especialmente em períodos de calor intenso e menor disponibilidade de água.

Abastecimento de água é desafio para a Ilha de Itaparica no pico do EL Niño

Foto: Gilsimara Cardoso

Se o calor extremo representa uma preocupação para a saúde, o abastecimento de água acrescenta outro desafio para quem vive na Ilha de Itaparica. O período apontado pelos pesquisadores como o mais crítico para o calor coincide justamente com a alta temporada, quando aumenta a circulação de pessoas no território.

Entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, somente o Sistema Ferry-Boat registrou 429.195 pedestres e 152.875 veículos na travessia Salvador–Ilha de Itaparica. Os números incluem moradores, trabalhadores, visitantes e outros usuários do sistema e, portanto, não representam exclusivamente turistas.

Ainda assim, os dados ajudam a dimensionar a pressão sobre a infraestrutura da Ilha no verão.

Durante o verão passado, moradores relataram períodos de interrupção no abastecimento. Segundo relatos recebidos pelo Jornal Atualize, houve situações em que comunidades ficaram até três dias consecutivos sem água durante momentos de maior demanda.

População flutuante na Ilha

Praia de Tairu na alta estação – Foto: Oni Sampaio

A situação preocupa especialmente famílias que não possuem caixa-d’água ou outro reservatório em suas residências.

A moradora Jossicleide dos Santos demonstra preocupação com os impactos da falta de água durante o período de veraneio. Ela destaca a desigualdade entre moradores locais e veranistas, principalmente em relação à estrutura de armazenamento de água.

“Estou muito preocupada com a falta de água. Já tivemos problemas sem água aqui nesse período e foi terrível. O morador, principalmente, é quem sofre mais, porque o pessoal que vem veranear vai para os condomínios, que têm reservatórios de água. A maioria dos nativos não tem. E, com essa previsão de calor, nem sei como vai fazer. Eles deveriam estar anunciando, fazendo campanha, principalmente para o veranista, que terá de economizar água,” afirma Jossicleide.

Embasa anuncia ampliação, mas projeto ainda não foi apresentado

Foto: Google Maps

Procurada pelo Jornal Atualize sobre a preparação do sistema para o período mais grave do El Niño, a gerente da Embasa na Ilha, Leila Paula, informou que a empresa pretende executar obras de ampliação do sistema de abastecimento.

Segundo ela, o objetivo consiste em melhorar o fornecimento de água para toda a Ilha. “Estaremos executando obras de ampliação do sistema no sentido de melhorar o abastecimento da Ilha como um todo”, afirma.

Leila explica também que a Embasa está concluindo os procedimentos necessários para iniciar as obras. “Estamos na fase de finalização dos trâmites legais a fim de dar início às obras”, informou.

De acordo com a gerente da Embasa, o projeto também leva em conta as transformações esperadas na região com a obra da Ponte Salvador–Ilha de Itaparica. Segundo ela, a ampliação do sistema de abastecimento busca preparar a Ilha para o aumento da demanda provocado pelo crescimento imobiliário. “Esse é um projeto amplo que visa não apenas o El Niño, como também o boom da especulação e crescimento imobiliário em decorrência da obra da ponte”, declara.

A previsão informada pela Embasa indica que, se o cronograma seguir conforme o planejado, a entrega das obras poderá ocorrer ainda em 2026.

Apesar da informação, a empresa não apresentou ao Jornal Atualize, até o momento, os detalhes técnicos do projeto, como capacidade de ampliação, localidades beneficiadas, volume adicional de água, cronograma detalhado ou quais comunidades receberão as intervenções.

Moradores aguardam segurança para enfrentar o calor

Foto: Gilsimara Cardoso

A ausência dessas informações ganha importância diante da proximidade do período de maior movimento na Ilha.

Dezembro, janeiro e fevereiro concentram altas temperaturas e maior circulação de pessoas. Ao mesmo tempo, o estudo do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago aponta esse intervalo como parte do período crítico do Super El Niño.

Assim, a Ilha poderá enfrentar simultaneamente calor extremo, aumento da população flutuante e maior demanda por água.

Para as famílias que possuem reservatórios, uma eventual interrupção pode contar com alguma margem de segurança. Já nas casas sem caixa-d’água, a situação pode se tornar mais delicada.

Por isso, a capacidade de armazenamento das residências também entra na equação do abastecimento durante o El Niño.

A ampliação anunciada pela Embasa pode representar uma resposta estrutural para a Ilha, principalmente diante do crescimento populacional e imobiliário previsto para os próximos anos. Entretanto, para o próximo verão, permanece uma questão central: as obras estarão concluídas e operando antes do período de maior demanda?

Enquanto isso, moradores e autoridades municipais precisam considerar a possibilidade de aumento da demanda por água durante os meses mais quentes do EL Niño e movimentados do ano.

Na Ilha de Itaparica, portanto, o alerta climático não envolve apenas a temperatura. Envolve também a capacidade de garantir água para quem mora no território e para a população que chega justamente durante o período de maior calor.

Prefeitura de Vera Cruz prepara plano de ação

Foto: Gilsimara Cardoso

Diante da previsão de temperaturas elevadas, o Jornal Atualize procurou o prefeito de Vera Cruz, Igor Pinho, para saber quais medidas a gestão pretende adotar para enfrentar o período.

A reportagem perguntou se a Prefeitura já articulava uma estratégia específica, considerando que dezembro, janeiro e fevereiro devem concentrar os meses mais críticos e que a Ilha estará com um grande número de visitantes.

Igor Pinho afirmou que a administração municipal ainda estuda as estratégias. “Estamos em estudo das melhores estratégias específicas, mas vamos intensificar a Operação Chuva. Antecipar o que antes acontecia em janeiro. Vamos antecipar para outubro/novembro.”

A gestão também foi questionada sobre medidas específicas para proteger famílias em situação de vulnerabilidade diante da previsão de calor extremo.

A reportagem perguntou se as áreas de Saúde e Assistência Social terão ações direcionadas a pessoas mais vulneráveis às altas temperaturas.

O prefeito respondeu que esse planejamento ainda está em elaboração. “Isto que estamos estudando especificamente”, afirmou.

Na sequência, Igor Pinho informou que a Prefeitura está “montando um plano de ação”.

Trabalhadores e população vulnerável precisam de atenção

Foto: Gilsimara Cardoso

O calor extremo não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade enfrentam riscos maiores durante períodos prolongados de temperaturas elevadas.

Na Ilha, o cenário também envolve trabalhadores que passam boa parte do dia expostos ao sol.

Pescadores, marisqueiras, ambulantes, trabalhadores da construção civil e profissionais ligados ao turismo podem permanecer durante horas em ambientes abertos e sob altas temperaturas.

Por isso, a prevenção envolve tanto ações individuais quanto políticas públicas.

O morador de Vera Cruz, Leonardo Rosendo, destaca a necessidade de água para a criação de animais e defende a conscientização da população. “Acho que será muito complicado, até porque é período de veraneio, quando aumenta muito o consumo de água. No meu caso, tenho criação de animais, como porco e galinha. O melhor caminho seria a conscientização da população para evitar o desperdício,” afirma.

Entre as medidas recomendadas pelos pesquisadores estão sistemas de alerta para calor, pontos de hidratação, espaços de resfriamento e proteção para trabalhadores expostos às altas temperaturas.

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