Moradores alimentam e cuidam dos animais nas ruas, mas adoção responsável, castração e combate ao abandono são caminhos para garantir proteção, afeto e uma vida digna aos cães.

Um episódio inusitado chamou a atenção de quem esteve em Riachão do Jacuípe, Bahia, no último dia 5 de setembro. Durante um evento cultural na Praça da Matriz, uma jovem estudante de Cruz das Almas caiu depois que um cão, que brincava com outros cães, correu e atingiu a estudante.
O episódio despertou um olhar mais atento para uma cena que já faz parte da rotina da cidade. Cães circulam sem tutores pelas ruas, praças e outros espaços públicos.
Muitos desses animais recebem comida de moradores. Algumas pessoas colocam ração, restos de alimentos e água nas calçadas. A atitude demonstra solidariedade e preocupação com os animais. Entretanto, alimentar um cão abandonado resolve apenas uma necessidade imediata. O animal continua sem proteção, sem acompanhamento veterinário e, principalmente, sem um lar.
Entre o afeto e o risco, moradores pedem mais responsabilidade

A presença dos cães nas ruas também interfere diretamente na rotina de quem mora ou circula pelo município. Embora muitos moradores demonstrem carinho e ofereçam alimentos aos animais, alguns relatam situações de medo, acidentes e risco de mordidas. “Minha mulher quase foi mordida por um cachorro. Não pode ficar solto nas ruas. O cachorro deve ser criado dentro do muro”, afirma José dos Santos, morador do município.

Vitória Maria, dona de casa, também conhece pessoas que enfrentaram problemas com cães abandonados. “Eu conheço pessoas que já foram mordidas, já sofreram acidentes. Diversas pessoas tiveram problemas”, conta.
Os relatos reforçam que a discussão não envolve apenas proteção animal. A responsabilidade também passa pela segurança da população.
Vitória também se emociona ao falar sobre o desejo de acolher um cão. “Eu não tenho cachorro porque moro em apartamento. Tenho dois gatos. Se eu tivesse espaço, uma área maior, eu teria um cachorro. Porque eu amo os animais.”
Quem alimenta ajuda, mas quem adota transforma

A realidade, entretanto, não pode colocar os animais como responsáveis pelo problema. Eles não escolheram viver nas ruas. Por trás de muitos cães abandonados existe uma decisão humana. Alguém que deixou o animal para trás, permitiu uma reprodução sem controle ou simplesmente não assumiu a responsabilidade de cuidar dele.
Por isso, alimentar pode amenizar a fome, mas não encerra o ciclo do abandono. Quando um morador oferece água e comida, ele ajuda a manter aquele animal vivo. Porém, quando alguém abre a porta de casa, oferece cuidados e assume a responsabilidade por aquele cão, transforma completamente a história.

É essa diferença que a adoção responsável pode fazer. O aposentado Antônio Galdino conhece de perto esse vínculo. Nêgo, cão que vive com Sentror Antônio há mais de 13 anos, tornou-se um companheiro de vida e de todos os dias. “Eu tenho amor pelo bichinho porque ele também tem amor por mim. Ele tem mais amor pela gente do que muito ser humano. Tem gente que diz gostar da gente, mas é falsa. O animal não. O amor dele não é falso de jeito nenhum,” ressalta cheio de orgulho.

Maria Vilma Carneiro também não esconde o carinho pelos seus cães. “Tenho dois. Todi e Pitoquinho. Ave Maria eu amo muito. São meus amigos fiéis. são muito dóceis comigo, eu amo meus cachorrinhos. O que eu falo para as pessoas é que adotem, não deixem eles sofrendo na rua, são como filhos pra gente”, declara sorridente.
Esses relatos mostram que a relação entre humanos e animais pode ir muito além da alimentação. Existe companhia, afeto, proteção, confiança e vínculo.
Quando um cão passa a viver permanentemente na rua, a comunidade começa, muitas vezes, a enxergar aquela situação como algo normal.

Um animal aparece na praça, outro em frente a um mercado. Alguém oferece comida. Outro coloca água. Eles dormem na calçada. Depois chegam outros. Assim, o abandono corre o risco de se tornar invisível e, pior, normalizado.
Entretanto, a presença constante desses animais revela um problema que precisa de responsabilidade coletiva. O tutor que abandona tem responsabilidade. Quem permite a reprodução sem controle também precisa refletir sobre as consequências. O poder público tem seu papel. As associações de proteção animal também atuam. E a sociedade pode contribuir com adoção, castração, denúncias e cuidados.
A veterinária Carla Ribeiro, alerta que oferecer alimento e água é importante, mas não resolve, sozinho, a situação de animais que permanecem nas ruas. “Quando simplesmente mantemos animais nas ruas, mesmo oferecendo alimento, continuamos expondo esses animais a atropelamentos, doenças, brigas, maus-tratos, reprodução descontrolada e condições extremamente vulneráveis de sobrevivência.”

De acordo com Carla, o cuidado precisa ir além da garantia de que o animal tenha o que comer. A proteção também envolve medidas capazes de reduzir os riscos e proporcionar condições adequadas de vida. “Todo animal merece mais do que sobreviver. Merece viver com segurança, dignidade e bem-estar. E cuidar da população de animais de rua não significa apenas cuidar dos animais: significa cuidar também da comunidade e do ambiente em que todos nós vivemos.”
Nesse sentido, transformar a presença de cães abandonados em parte da paisagem não significa resolver o problema. Pelo contrário, pode fazer com que uma situação de vulnerabilidade seja aceita como algo permanente.
Castração é feita em parceria entre APARJ e Prefeitura

A Prefeitura de Riachão do Jacuípe informou ao Jornal Atualize que mantém parceria com a Associação de Proteção dos Animais de Riachão do Jacuípe (APARJ). O local conta com um espaço para o período pós-operatório de cães submetidos à castração.
A gestão municipal também informou que apoia os mutirões mensais de castração e disponibiliza atendimento veterinário para a associação. Além de promover a vacinação antirrábica.
Cláudio Jefferson Carneiro, presidente da APARJ, confirmou a parceria com a prefeitura e disponibilizou o canal de agendamento para castração que ocorre uma vez por mês. “As pessoas interessadas podem entrar em contato com o Instagram da associação para fazer o agendamento”, explica.

Cláudio, entretanto, reforça que o projeto possui critérios específicos. “Lembrando que a castração é para animais de pessoas carentes que não tenham condições de pagar uma castração. Animais de raça não entram pelo projeto”, esclarece.
O presidente também destaca que a APARJ não oferece vacinação. No caso da vacina antirrábica, o serviço fica sob responsabilidade da Prefeitura, sendo realizado por agentes de saúde do município.
A castração pode contribuir para evitar novas ninhadas e, consequentemente, reduzir o número de animais que chegam às ruas. No entanto, a medida representa apenas uma parte da solução.
Um lar vale mais do que uma refeição na calçada

Riachão do Jacuípe não precisa se acostumar com cães abandonados como se eles fizessem parte da paisagem. A mudança de comportamento é necessária. Eles precisam de comida, sim. Precisam de água, tratamento, proteção e principalmente de um lar.
A veterinária Mayara Menezes conhece de perto os efeitos colaterais do amor mais fiel do mundo. Ela adotou Saory, também chamada de Sasa, uma cadela que foi resgatada após enfrentar uma doença grave. “A Sasa teve parvovirose e nos escolheu para ser a família dela. Hoje, ela é doadora de sangue e salva vidas.”

A história de Sasa mostra que o resgate pode representar muito mais do que retirar um animal da rua. Pode ser o início de uma nova trajetória, marcada por cuidado, segurança e afeto. “Ao abrigar um animal abandonado, é possível oferecer algo muito além de alimentar. Ele aprende a ter uma família, alguém que o ame e possa ter a honra de sentir na pele o quanto é gratificante ter um melhor amigo de quatro patas.”
De acordo com Mayara, o animal adotado também demonstra diariamente sua gratidão por coisas que podem parecer simples para quem sempre teve um lar. “O animal resgatado demonstra diariamente o quanto ele é grato por ter coisas simples, como por exemplo, um sofá para chamar de seu.”

Quando alguém abre a porta de casa para um cão abandonado, oferece mais que um lar: oferece uma segunda chance. Em troca, recebe afeto, companhia e uma amizade para a vida inteira.
Se você pode acolher, adote. Um animal no seu lar também pode mudar a sua vida.
