Exposição no Museu de Arte da Bahia aproxima artistas, memórias e culturas para discutir o reconhecimento do fazer artístico e a representatividade territorial.
Por Marcos Cruz

Há obras que convidam o público a olhar. Outras fazem algo mais profundo: convidam a sentir, pensar, questionar e reconhecer.
Foi com essa sensação que o Jornal Atualize acompanhou a abertura de Atlântico Sertão, realizada no Museu de Arte da Bahia (MAB), em Salvador.
A exposição, que permanece aberta ao público até 29 de janeiro de 2027, tem visitação de terça a domingo, das 10h às 17h30h, com entrada gratuita.
Atlântico Sertão reúne obras de mais de 80 artistas de diferentes regiões do Brasil e propõe uma viagem por territórios, memórias, ancestralidades, culturas e formas de resistência que, embora separadas geograficamente, encontram pontos de conexão.

A abertura da exposição foi no último dia 28 de setembro e contou com a participação de veículos de comunicação, jornalistas e comunicadores.
Desde a chegada, jornalistas e comunicadores foram recepcionados e conduzidos ao auditório, onde representantes do Centro Cultural Banco do Brasil e do Museu de Arte da Bahia deram as boas-vindas e apresentaram a proposta da mostra.
Reflexão
E logo ficou evidente que Atlântico Sertão é muito mais do que uma exposição de arte.
É também um espaço de reflexão e reivindicação de direitos. Um lugar para discutir o reconhecimento profissional de artistas que, em muitas situações, ainda precisam recorrer a outras nomenclaturas profissionais para desenvolver suas atividades e garantir sua sobrevivência.

Ao final do bate-papo foram sorteados exemplares do livro Ser Tão Artista: Direitos Humanos Achados na, de autoria de Marina Jucá Maciel.
Idealizada pela mestra e doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Marina Maciel, cuja pesquisa investiga a arte como ferramenta de defesa dos direitos humanos.
Atlântico Sertão tem curadoria de Marcelo Campos, curador-chefe do Museu de Arte do Rio (MAR), em colaboração com Ariana Nuala, Amanda Rezende, Jean Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade.
A exposição utiliza a arte como espaço de construção da memória e de reflexão crítica, estabelecendo diálogos a partir das dimensões simbólicas e das relações entre “Atlântico” e “Sertão”.
Nesse contexto, a expressão “dimensões simbólicas” está relacionada aos significados, memórias, representações e valores que determinados lugares, objetos e manifestações culturais carregam.
Uma viagem pela subjetividade e pelos territórios

Em seguida, fomos guiados pelos curadores Marcelo Campos e Ariana Nuala, que conduziram os participantes por uma verdadeira viagem à subjetividade. E, ao mesmo tempo, ao reconhecimento de elementos, símbolos e arquétipos presentes em nossos territórios e em nossa vida cotidiana.
A palavra arquétipo, nesse contexto, pode ser entendida como uma imagem, ideia ou representação que se repete em diferentes culturas e que ajuda a expressar experiências humanas, memórias e formas de compreender o mundo.
A curadoria da exposição, composta por trabalhos de mais de 80 artistas de diferentes regiões, conseguiu desvendar, revelar e apresentar o quanto existe de semelhança e proximidade em cada produção artística.
Curadores Marcelo Campos e Ariana Nuala

Como a exposição foi dividida por seções, era possível perceber o esforço e a competência da curadoria em reunir artistas e obras que dialogassem entre si por meio de suas linguagens, elementos e narrativas artísticas.
Mesmo quando havia alguma dualidade, ou seja, diferenças e contrastes entre as obras, era possível fazer leituras bastante próximas da realidade de cada pessoa. E isso importa muito, pois a arte também cumpre seu papel social e de inclusão.
Sertão, África e Oceano Atlântico

A exposição também convida o público a perceber as conexões profundas entre o sertão brasileiro, a África e o Oceano Atlântico.
Em “Sertão Atlântico, no espaço Travessias e poeiras que vêm do Saara”, paisagens, memórias, saberes e culturas revelam histórias de encontros e deslocamentos que atravessaram o tempo e o oceano.
A aproximação entre o sertão e o Sahel africano mostra como povos de diferentes territórios desenvolveram formas de resistência e convivência com ambientes marcados pela escassez de água.
O Sahel é uma região localizada ao sul do deserto do Saara, na África, marcada por condições climáticas mais secas e por longos períodos de escassez de água. A referência feita pela exposição ajuda a estabelecer uma relação entre diferentes povos que desenvolveram conhecimentos e estratégias para viver em ambientes com características semelhantes.
Até mesmo as poeiras do Saara, levadas pelo vento a longas distâncias, tornam visível essa conexão entre continentes e reforçam a ideia de que terra, água, ar e cultura estão ligados por uma mesma história, que continua em movimento.
Cosmologias em Movimento

Já na área “Cosmologias em Movimento”, são apresentadas diferentes formas de compreender e interpretar o mundo a partir dos saberes e das práticas transmitidos entre gerações.
A palavra cosmologia pode parecer complexa, mas, nesse caso, refere-se às diferentes maneiras pelas quais os povos compreendem o mundo. A natureza, a vida, a espiritualidade e a relação entre os seres humanos e o ambiente em que vivem.
A seção destaca caminhos invisíveis que conectam pessoas, territórios e ancestralidades, reunindo conhecimentos como rezas, benzimentos, consultas e sinais da natureza.
Esses saberes orientam decisões, protegem comunidades e acompanham os deslocamentos, mostrando como o espiritual, a natureza e a vida cotidiana estão profundamente relacionados.
A proposta revela, assim, diferentes maneiras de perceber o mundo, nas quais o visível e o invisível estão em constante diálogo.
Arquivos vivos, grafias e inscrições da terra

A seção “Arquivos vivos, grafias e inscrições da terra” apresenta o sertão como um território que guarda e transmite histórias por diferentes formas de registro.
As marcas nas pedras, as inscrições rupestres, os vestígios de antigas ocupações e as tradições orais revelam memórias que atravessam gerações. Além de mostrar a presença e a trajetória dos povos que habitaram esses territórios.

O espaço também aproxima essas formas ancestrais de registro das tecnologias atuais, reunindo som, rádio, imagens, luz e meios digitais.
Assim, o sertão é apresentado como um arquivo vivo e em constante movimento, capaz de preservar, transformar e retransmitir suas histórias por diferentes linguagens, da pedra às telas digitais.
A expressão “arquivo vivo” significa, nesse contexto, que a memória não está parada ou presa ao passado. Ela continua sendo transmitida, reinterpretada e transformada pelas novas gerações e pelas diferentes tecnologias.
Ayrson Heráclito e a arte como oferenda
Um dos pontos altos da exposição foi a presença do fotógrafo e artista visual Ayrson Heráclito (BA), que destacou que seu trabalho, a Série Bori (oferenda de cabeça), teve como referência o Bori, que é um ritual de iniciação do candomblé.
Fotógrafo e artista visual Ayrson Heráclito

Bo quer dizer oferenda, e Ori significa cabeça. O artista entende o ritual como um instrumento importante para o fazer artístico, principalmente em uma concepção afrocentrada.
O termo afrocentrada está relacionado a uma perspectiva que coloca as experiências, os conhecimentos, as culturas, as histórias e as referências dos povos africanos e afrodescendentes no centro da construção da narrativa.
O artista explicou que a ideia não é mimetizar o ritual, ou seja, simplesmente reproduzi-lo ou copiá-lo, mas criar uma versão extremamente poética.
Fala que “o trabalho dele é pensar a arte como ebo, pensar a arte como uma oferenda, é o que eu faço até hoje, é um ebo arte”.
Arte como instrumento de reivindicação de direitos

Para encerrar, Marcelo Lemos, um dos curadores, abriu espaço para perguntas. A discussão abordou como a exposição pode transformar a arte em instrumento de reivindicação de direitos, especialmente para os artistas, e produzir resultados concretos diante da subjetividade atribuída à produção artística.
Marcelo explicou que esse processo ocorre por meio de um conjunto de ações. “Isso acontece por meio de um conjunto de ações, como, por exemplo, o Projeto de Lei 1.928/2024, de autoria do deputado federal Clodoaldo Magalhães (PV/PE), que propõe a regulamentação e o reconhecimento da profissão de artista visual no Brasil.”
O curador também destacou outras possibilidades. “A proposta também envolve a possibilidade de intercâmbios culturais e de residências artísticas com outros países, a inserção de artistas distintos na ocupação de equipamentos culturais, como o MAB, além da realização de debates constantes sobre a valorização do fazer artístico e cultural e suas necessidades.”
Já Ariana Nuala acrescentou outro aspecto relacionado à exposição. “Outro resultado que a exposição entrega é a valorização e representatividade dos territórios por meio dos trabalhos dos artistas.”
Encerramento com música

Ao final da abertura da exposição Atlântico Sertão, os participantes foram convidados e presenteados com um coquetel e com a apresentação do Òfá, grupo musical de matriz africana.
A programação encerrou a noite reunindo arte, música, cultura e convivência, elementos que também fazem parte da proposta de aproximar o público das diferentes histórias, memórias e identidades apresentadas pela exposição.
Artistas participantes da mostra
Alagoas (AL)
Amilton; Antônio Sandes; Genauro; Gonçalves; Joaci do Pandeiro; Joaci Lima; Mestre Benon; Ziel Karapotó.
Amazonas (AM)
Alessandro Fracta; Denilson Baniwa; Rodrigo Braga.
Bahia (BA)
Adenor Gondim; Alê Siqueira (SP/BA); Ayrson Heráclito; George Teles; J. Cunha; Leonardo França; Lita Cerqueira; Lucélia Maciel; Marcos da Matta; Márvila Araújo; Nádia Taquary; Rose Afefé (BA) / Bysmarke Vaqueiro (BA); Ventura Profana; Yacunã Tuxá; Zé di Cabeça; Zumví Arquivo Afro Fotográfico; Àwọn arákùnrin oníṣẹ́-ọnà mẹ́ta.
Ceará (CE)
Jonas Van / Juno B; Maria Macêdo; SouPixo; Trojany.
Distrito Federal (DF)
Antonio Obá; Dalton Paula.
Goiás (GO)
Gilson Plano.
Minas Gerais (MG)
Maria Lira Marques; Maré de Matos; Rebeca Miguel; Wisrah C. V. da R. Celestino.
Mato Grosso (MT)
Gervane de Paula.
Pará (PA)
Moara Tupinambá; Rafa Bqueer.
Paraíba (PB)
José Rufino; Luiz Barroso; Marlene Almeida; Rafael Chavez; Thiago Costa.
Pernambuco (PE)
Abiniel João Nascimento; Amanda Melo; Ana Neves; Aura do Nascimento; biarritzzz; Eliana Amorim; Fykyá Pankararu; José Alves; Juniara Albuquerque; Mitsy Queiroz; Tunga.
Paraná (PR)
Gustavo Caboco; Lidia Lisbôa.
Rio de Janeiro (RJ)
Aline Motta; Ana V. Lopes; André Vargas; Mayra Carvalho; rOnA; Ronald Duarte; Tainan Cabral; Thaís Iroko; Xamânica / Tayná Uràz; Yhuri Cruz.
Rio Grande do Norte (RN)
Não há artistas identificados como RN na relação enviada.
Rio Grande do Sul (RS)
Não há artistas identificados como RS na relação enviada.
São Paulo (SP)
Jaime Lauriano; Rosana Paulino.
Sergipe (SE)
Véio.
Piauí (PI)
Mônica Barbosa; Naywá Moura.
