Há fronteiras que aparecem nos mapas. Outras aparecem quando descobrimos que não sabemos aquilo que acreditávamos saber e depois de dois anos uma nova fronteira

2026, Capítulo 27 – Cruzando a fronteira com Polar
Polar, membro da família Bikeagle- Foto: Arquivo pessoal

Desde que saímos da Colômbia, há já dois anos, percorremos a América do Sul de uma maneira muito particular: de bicicleta e em família. A Colômbia foi nosso ponto de partida. Depois, cruzamos para a Venezuela, da Venezuela para o Brasil, do Brasil para o Paraguai e, novamente, retornamos ao Brasil. Polar está conosco desde o primeiro dia. Desde que saímos da Colômbia, viajamos com sua documentação em dia, suas vacinas e todos os documentos necessários para nos movimentarmos com ele.

Mas havia algo que nunca tinha acontecido. Em nenhuma das fronteiras anteriores nos haviam pedido a documentação de Polar. Até agora. Nossa primeira entrada na Argentina seria também a primeira vez que descobriríamos que, quando viajamos com um animal, ele também tem uma fronteira para atravessar.

E os documentos de Polar?

Polar, membro da família Bikeagle- Foto: Arquivo pessoal

A fronteira que não esperávamos. De Foz do Iguaçu, decidimos pedalar até a Argentina. Depois de tantos meses de pausa, voltar a montar em nossas bicicletas tinha um significado especial. Queríamos conhecer, queríamos acampar, queríamos percorrer Puerto Iguazú, queríamos simplesmente voltar a sentir aquela liberdade de avançar juntos sobre nossas bicicletas. E ali estávamos, diante de uma nova fronteira. Nossos documentos estavam prontos.

Nós os tínhamos. Sempre tivemos. Mas nunca haviam nos solicitado daquela maneira. Dessa vez, sim. Pediram a documentação sanitária, as vacinas, seu passaporte e a certificação veterinária correspondente. Em questão de minutos, aquilo que parecia ser um simples procedimento transformou-se em um momento de muita tensão para nós. Explicaram que, se Polar não cumprisse os requisitos sanitários para entrar no país, poderia ser retido e encaminhado para quarentena, ficando as medidas posteriores sujeitas à avaliação da autoridade veterinária.

E então veio o susto. Porque Polar não é simplesmente o cachorro que viaja conosco. Polar faz parte da nossa família. Ele está há seis anos na família, desde que Thomas tinha apenas um mês de vida. Há dois anos percorre a América do Sul conosco. Já cruzou fronteiras, dormiu em acampamentos, compartilhou caminhos e viveu esta aventura desde o primeiro quilômetro. E, de repente, entendemos que, embora conhecêssemos a dinâmica de atravessar uma fronteira, não necessariamente conhecíamos as regras para fazer isso com ele.

Viajar com um cachorro também significa se preparar

Família Bikeagle- Foto: Arquivo pessoal

Essa experiência nos deixou algo que queremos compartilhar com quem também sonha em viajar com seus animais de estimação. Não basta preparar nossos próprios documentos. Cada país pode ter requisitos sanitários diferentes para a entrada de animais. Por isso, mesmo que toda a documentação esteja em dia, é importante pesquisar especificamente as condições do país para o qual estamos entrando antes de chegar à fronteira. Nós já tínhamos a documentação de Polar desde que saímos da Colômbia, e isso foi fundamental.

Mas também aprendemos que ter os documentos não significa, necessariamente, conhecer os requisitos específicos de cada fronteira. E essa diferença pode mudar completamente a experiência. Para nós, dessa vez, tudo terminou bem. Pudemos continuar. Polar cruzou conosco, e a Argentina se tornou um novo território dentro desta viagem. Mas o susto ficou como aprendizado.

Depois de superar o momento da fronteira, começou outra parte da aventura. Argentina. Era nossa primeira vez ali, e chegar de bicicleta tornava tudo ainda mais especial. Chegamos pedalando, com nossa casa sobre duas rodas, com Polar, com tudo aquilo que somos quando estamos em movimento. E então apareceu Puerto Iguazú.

Puerto Iguazú: um encontro de caminhos

Nazareth Reales, Polar e Thomás – Foto: Arquivo pessoal

Puerto Iguazú é um daqueles lugares onde a palavra fronteira ganha outro significado. Ali se encontram Argentina, Brasil e Paraguai. Os rios Iguaçu e Paraná marcam parte desse encontro e, ao redor deles, também se encontram as pessoas. Vimos turistas vindos de diferentes partes do mundo, pessoas que haviam percorrido enormes distâncias para conhecer aquele lugar. E nós, depois de dois anos percorrendo a América do Sul, chegávamos do Brasil de bicicleta. Encontramos uma cidade turística que nos pareceu bonita, organizada, limpa e muito bem cuidada.

Desfrutamos da gastronomia argentina, conhecemos seus sabores, nos deparamos com uma moeda diferente e também descobrimos algo que sempre acontece quando atravessamos de um país para outro: nossa referência muda. O dinheiro parece diferente. Os preços parecem diferentes. As coisas que em um lugar parecem normais podem parecer completamente diferentes em outro. E isso também é viajar.

O que realmente significa cruzar uma fronteira?

Família Bikeagle- Foto: Arquivo pessoal

Quando pensamos em uma fronteira, imaginamos um posto de imigração, documentos, passaportes, alfândega, policiais, idiomas e moedas diferentes. Mas nossa experiência com Polar nos fez pensar em algo mais. Talvez cada fronteira também nos obrigue a sair daquilo que conhecemos. Porque viajar nos obriga a aceitar algo que nossa vida cotidiana muitas vezes nos faz esquecer: não sabemos tudo.

Depois de dois anos viajando, poderíamos pensar que já sabemos como funciona uma fronteira. Até que surge uma pergunta para a qual não estávamos preparados: E os documentos de Polar? E então precisamos parar, perguntar, ouvir, aprender, nos adaptar e seguir. O que faço quando descubro que não sei? Enquanto atravessávamos a fronteira rumo à Argentina, pensei em todas essas outras fronteiras que existem em nossa vida.

A fronteira que separa aquilo que quero daquilo que acredito que devo fazer. O conflito provocado pelo que sinto e pelo que me permito expressar. A distância que existe diante daquilo que conheço e daquilo que tenho medo de descobrir. E, talvez, a mais difícil de todas: deixar para trás a versão que fui para descobrir a pessoa que estou começando a ser.No capítulo anterior, começamos a falar sobre essa viagem para dentro de nós mesmos. Desta vez, não precisamos voltar a perguntar quem somos.


O que faço quando descubro que não sei?

Porque reconhecer que não sabemos pode ser desconfortável, mas também pode ser o começo de algo novo. Quando deixamos de acreditar que já temos todas as respostas, surge espaço para aprender. E talvez seja justamente isso que viajar tenha nos ensinado durante esses anos. Não apenas a nos mover, mas também a questionar nossas certezas.

Uma família que continua aprendendo a cruzar fronteiras

Família Bikeagle- Foto: Arquivo pessoal

Nossa família também está atravessando suas próprias fronteiras. Não apenas geográficas, mas também culturais, econômicas, familiares, pessoais e mentais. Cada um à sua maneira. Enquanto continuamos aprendendo a nos conhecer, Thomas e Andrés também começaram a me acompanhar em algo que faz parte desta nova etapa da nossa vida. À noite, antes de dormir, fazemos juntos alguns exercícios de respiração e calma.

São pequenos momentos, sem grandes discursos, sem a necessidade de ter todas as respostas. Simplesmente aprendendo. Porque talvez uma família também possa aprender a cruzar fronteiras. Nem sempre para chegar mais longe. Às vezes, simplesmente para descobrir que existe outra maneira de olhar, sentir ou fazer as coisas. Algumas fronteiras não têm postos de imigração

Talvez por isso essa pequena viagem à Argentina tenha terminado sendo muito mais do que uma visita a outro país. Fomos cruzar uma fronteira geográfica, e Polar nos lembrou que cada território tem suas próprias regras. Conhecemos Puerto Iguazú e encontramos pessoas de muitas partes do mundo reunidas em um lugar onde três países se encontram. Fomos pedalar alguns quilômetros e acabamos pensando em tudo aquilo que ainda estamos aprendendo. Porque algumas das fronteiras mais difíceis de atravessar não têm postos de imigração, não têm policiais, não têm placas e não aparecem no Google Maps.

“Elas estão dentro de nós. E seguimos pedalando”

Nazareth Reales e Polar – Foto: Arquivo Pessoal

Talvez isso seja viajar. Cruzar uma fronteira e descobrir que, do outro lado, existe outro idioma, outra moeda, outros sabores e outras maneiras de viver. Mas também descobrir que nós mudamos um pouco cada vez que nos permitimos atravessá-la. Desta vez, cruzamos para a Argentina, com Polar, com nossas bicicletas, como família. E talvez, sem perceber, também continuamos atravessando outras fronteiras.

Algumas estão nos mapas. Outras estão em nossa mente. E algumas… estão muito mais perto. Dentro de nós. Porque, depois de tantos quilômetros, continuamos aprendendo que viajar não consiste apenas em chegar a outro lugar. Também consiste em nos atrevermos a sair daquilo que acreditávamos conhecer e seguir pedalando em direção ao que ainda não sabemos. Nos vemos na próxima aventura com a casa sobre duas rodas.

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