Líder religiosa e integrante da Coalizão, pesquisadora analisou os impactos da Ponte Salvador/Ilha de Itaparica e destacou o protagonismo de mulheres e comunidades tradicionais na defesa de seus territórios.

A menina Eliana cresceu.
Filha de Mãe Eunice Olosun , uma das quatro filhas da família, ela cresceu cercada pela ancestralidade, pela religiosidade e pelos saberes de sua comunidade na Ilha de Itaparica.
Mas chegar à universidade não representou um caminho simples. Como mulher preta de terreiro, Eliana precisou enfrentar desafios para ocupar um espaço historicamente marcado por desigualdades e barreiras de acesso.
Ela chegou à Universidade Federal da Bahia (UFBA), levando consigo não apenas um projeto acadêmico, mas, sobretudo, a história de sua família, sua fé, sua comunidade e a luta pela preservação do território sagrado da Ilha.
E foi justamente dentro da UFBA que essa trajetória recebeu reconhecimento.
Na última sexta-feira, 28 de agosto, Eliana Falayó recebeu o Prêmio de Melhor Dissertação do PDGS – Edição 2025, concedido pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Gestão Social da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia.

O prêmio reconhece a dissertação “A atuação da Rede Omiosun perante o empreendimento Ponte Salvador – Ilha de Itaparica”, pesquisa que analisa os desafios enfrentados por mulheres e lideranças de comunidades tradicionais diante das transformações provocadas pelo projeto da ponte.
Integrante da Coalizão e atuante na defesa dos direitos das comunidades tradicionais, Eliana desenvolveu a pesquisa a partir de sua própria vivência no território. Além disso, acompanhou lideranças e comunidades que enfrentam os impactos e as incertezas provocados pela implantação do empreendimento.
Sob orientação da professora e cientista social Morgana Gertrudes Krieger, a pesquisadora analisou os desafios enfrentados pela Rede de Mulheres Omiosun e por outras lideranças tradicionais diante das transformações previstas para a região.
Nesse contexto, a pesquisa aborda conflitos territoriais, relações de poder e os riscos socioambientais e culturais associados a grandes obras.
Pesquisa conecta experiências da Ilha de Itaparica e de Alcântara

O estudo também destaca a importância da preservação dos saberes ancestrais e do protagonismo das mulheres na defesa do território. Para Eliana, a proteção da Ilha de Itaparica não envolve apenas a dimensão física da terra. Mas também a memória, a cultura, a religiosidade e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
Além do trabalho de campo na Ilha de Itaparica, Eliana realizou uma Residência Social em Alcântara, no Maranhão, onde conheceu experiências de comunidades tradicionais que enfrentam conflitos territoriais relacionados à expansão do Centro de Lançamento Espacial.
A partir desse intercâmbio, a pesquisadora estabeleceu um paralelo entre as duas realidades e identificou estratégias de resistência construídas por comunidades que enfrentam diferentes formas de pressão sobre seus territórios.
Assista aqui o documentário completo
Como resultado prático da pesquisa, Eliana produziu o documentário “TGS Ancestral Voices – Itaparica and Alcantara: Territories of Resistance”, que reúne narrativas de pessoas diretamente e indiretamente afetadas pelos conflitos territoriais. O audiovisual funciona como uma tecnologia social para preservar memórias, ampliar o debate e aproximar comunidades que vivem experiências semelhantes.
“Como estratégia de pesquisa, realizei um estudo de caso comparativo da Residência Social, no qual conduzi pesquisa de campo por meio de entrevistas com líderes do território da Ilha de Itaparica e da Comunidade Quilombo de Alcântara, no Maranhão. O objetivo foi traçar um paralelo entre as estratégias adotadas nos territórios afetados por violações de direitos,” explica Eliana.
Nesse sentido, a pesquisa ultrapassa os limites acadêmicos e busca contribuir diretamente para o fortalecimento das comunidades tradicionais. Ao registrar histórias, experiências e estratégias de resistência, o trabalho cria ferramentas para ampliar a participação social e estimular o debate sobre políticas públicas.
A dissertação também evidencia o papel das mulheres ancestrais na preservação da cultura da Ilha de Itaparica. Entre essas referências, o estudo destaca a Mestra Griô Eunice Oloşun, cuja trajetória representa a continuidade dos saberes e fazeres tradicionais.
Reconhecimento valoriza ciência, memória e resistência comunitária

A premiação do PDGS representa, portanto, o reconhecimento de uma pesquisa que articula conhecimento acadêmico e experiência comunitária. Assim, o trabalho de Eliana Falayó coloca no centro do debate as comunidades tradicionais e suas estratégias de preservação dos territórios, das tradições e da memória.
A cerimônia também reuniu pessoas que participaram da trajetória acadêmica da pesquisadora. Na fotografia do momento da premiação, Luiza Reis Teixeira, coordenadora do PDGS, aparece ao lado esquerdo de Eliana, enquanto Morgana Krieger, sua orientadora, aparece ao lado direito.
Para além do reconhecimento institucional. O prêmio reforça a importância de pesquisas que dão visibilidade às vozes das comunidades tradicionais e ampliam a discussão sobre desenvolvimento, território e justiça social.
Eliana Falayó transforma sua experiência em conhecimento acadêmico e ferramenta de resistência, memória e mobilização na Ilha de Itaparica.
