Centro de Empoderamento da Misericórdia reúne pesquisadores, professores, lideranças e representantes da sociedade civil para ampliar o acesso à informação e fortalecer a participação popular.

Nenhum erro persiste diante de uma sociedade civil organizada. Em Itaparica, essa ideia ganhou força com a atuação do Grupo Coalizão, que há algum tempo articula ações em defesa da Ilha e da Baía de Todos-os-Santos.
No último sábado, 29 de agosto, o movimento promoveu mais uma iniciativa, desta vez no Centro de Empoderamento da Misericórdia, reunindo diferentes segmentos da sociedade para compartilhar conhecimento e estimular a participação comunitária.
Professores, pesquisadores, lideranças religiosas, advogados e um representante do Observatório de Protocolos de Consulta participaram do seminário. Cada convidado trouxe experiências e conhecimentos distintos, mas todos contribuíram para uma mesma discussão: como fortalecer a população para que ela conheça seus direitos e participe das decisões que envolvem o território.
Além disso, o encontro mostrou que informação também pode circular de forma democrática dentro das comunidades.
Do abandono à emancipação

Antes de se tornar o Centro de Empoderamento da Misericórdia, o espaço abrigava um antigo chafariz, construído para atender às mulheres da comunidade, que utilizavam o local para lavar suas roupas. Na época, era o único ponto de acesso à água na comunidade.
Com a chegada da água encanada às casas, o chafariz perdeu sua função e permaneceu abandonado durante anos. O espaço passou a acumular lixo e acabou se tornando um local de abandono.

A partir da organização comunitária e do acesso à informação, moradores passaram a compreender que aquele imóvel poderia cumprir uma nova função social. Em 2011, depois de uma ocupação e de muita resistência, a comunidade transformou o antigo chafariz no Centro de Empoderamento da Misericórdia.
Em 2025, o Centro de Empoderamento, já fortalecido pela mobilização e participação da própria comunidade, ganhou novas condições para ampliar suas ações. A partir do projeto “Marisqueiras Negras de Itaparica”, selecionado por meio do edital Empoderamento das Mulheres, da Fundação Banco do Brasil, o espaço passou a contar com apoio para fortalecer sua estrutura e desenvolver atividades voltadas à qualificação, organização e autonomia das mulheres.
Neste sentido, o local surge como um espaço de encontro, diálogo e acesso ao conhecimento. A proposta aproxima a população de pessoas que pesquisam, estudam e atuam diretamente em questões relacionadas aos direitos das comunidades e à proteção do território.

“O Centro de Empoderamento da Misericórdia serve como um espaço de acesso à informação, à educação e às leis, além de promover a articulação dos povos. É um espaço que promove encontros e possibilita o diálogo com a comunidade. Durante 20 anos, esse lugar ficou abandonado. Era um espaço que acumulava lixo e onde havia presença de usuários de drogas. Hoje, nós revitalizamos esse espaço e demos um novo sentido a esse imóvel.” Relata Rafael Tupinambá, um dos dirigentes do Centro.
Uma comunidade que conhece pode decidir

O encontro realizado no Centro de Empoderamento da Misericórdia deixa, portanto, uma reflexão que ultrapassa o seminário. A defesa de um território não depende apenas de mobilização. Ela também depende de informação.
Quando uma comunidade conhece seus direitos, entende sua realidade e tem acesso a diferentes fontes de conhecimento, ela amplia sua capacidade de participar das decisões que afetam sua própria vida. No entanto, esse conhecimento ainda não chega a todos. Entre pescadores e pescadoras, o desconhecimento sobre direitos territoriais revela uma barreira que vai além do acesso à informação.
“Vários direitos territoriais, mas a grande maioria dos pescadores desconhece esses direitos, seja pela dificuldade dos próprios pescadores em acessar essas informações, seja porque a própria sociedade não reconhece essas pessoas como detentoras de direitos. Além disso, existem poucas organizações sociais voltadas para empoderar, trazer informações e apoiar a luta dessas comunidades,” destaca Marcos Brandão, advogado do Conselho Pastoral de Pescadores e Pescadoras.
Por isso, fortalecer associações e espaços comunitários significa também fortalecer a democracia. Mais do que ouvir quem chega ao território para apresentar uma proposta, a comunidade precisa ter condições para perguntar, analisar e decidir.
Porque conhecimento não significa apenas saber mais. Significa ter mais liberdade para escolher. E uma comunidade que conhece seus direitos, conhece seu território e participa das decisões encontra mais condições para construir, com autonomia, o futuro que deseja para a Ilha de Itaparica.
Informação para fortalecer a defesa do território

A realização do seminário reforçou a necessidade de ampliar o acesso das comunidades às informações sobre as transformações que podem impactar os territórios, especialmente diante das discussões em torno do projeto da Ponte Salvador-Itaparica.
Para a líder religiosa Eliana Falayó, aproximar movimentos sociais, universidades e comunidades representa uma estratégia para romper o isolamento informativo e ampliar a capacidade de participação da população. “Acredito que a união entre o saber acadêmico e a vivência comunitária transforma a informação em uma ferramenta de resistência e salvaguarda cultural, permitindo que essas comunidades deixem de ser apenas impactadas e passem a ser protagonistas na exigência de soluções reais e na formulação de suas próprias estratégias de sobrevivência e de mitigação dos impactos, para além disso, precisamos ser ouvidas de verdade, também!”
A fala de Eliana reforça a importância de levar informação às comunidades para que conheçam seus direitos e compreendam os impactos sobre seus territórios. A aproximação entre universidade, movimentos sociais e comunidade transforma conhecimento em instrumento de participação, resistência e defesa do território.
Nesse contexto, o acesso ao conhecimento ganha ainda mais importância. Afinal, uma comunidade informada consegue questionar, comparar propostas e compreender melhor os impactos das decisões que chegam ao território.
