Educação alimentar nas escolas pode contribuir para mudar essa realidade e estimular estudantes a fazer escolhas mais saudáveis

O que um semáforo pode ensinar sobre alimentação? Em escolas municipais de Salvador, estudantes de 6 a 10 anos aprendem sobre escolhas alimentares por meio da dinâmica do Semáforo Alimentar. Realizada durante o mês de agosto, a atividade transforma conceitos de nutrição em uma prática interativa.
Após uma conversa sobre os diferentes tipos de alimentos e seus efeitos no organismo. Os estudantes participam de um circuito e classificam os alimentos em caixas identificadas pelas cores verde, amarelo e vermelho. A dinâmica ajuda as crianças a diferenciar os alimentos que podem aparecer com maior frequência na alimentação daqueles que exigem moderação ou devem ser consumidos apenas ocasionalmente.
A iniciativa integra o projeto de educação nutricional desenvolvido em escolas municipais. E, ganha ainda mais significado em agosto, quando o Dia Nacional de Combate ao Colesterol, celebrado no dia 8, antecede o Dia do Estudante, no dia 11.
Mais de 25% das crianças e dos adolescentes brasileiros apresentam níveis elevados de colesterol total. De acordo com a revisão de estudos realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Publicado na revista Archives of Endocrinology and Metabolism (AE&M), o estudo aponta a alimentação inadequada, o sedentarismo e a obesidade entre os principais fatores modificáveis associados às alterações do colesterol. O resultado reforça a necessidade de incentivar hábitos saudáveis desde a infância.
“Muitas vezes silencioso, esse quadro pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares ao longo da vida, reforçando a importância de estimular hábitos saudáveis desde a infância”, alerta a nutricionista Emília Coelho, responsável técnica do Grupo LemosPassos, empresa que atua na produção das refeições dos estudantes em 165 unidades da rede pública municipal de ensino.
Hábitos alimentares começam na infância

Embora muitas pessoas associem o colesterol elevado à vida adulta, os fatores que favorecem o desenvolvimento de doenças cardiovasculares podem surgir ainda na infância. Nesse sentido, a alimentação ocupa um papel importante na prevenção.
A mais recente Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose (2025), da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), aponta o LDL-colesterol (LDL-c), conhecido como colesterol “ruim”, como o principal fator causal da aterosclerose e o principal alvo das estratégias de prevenção das doenças cardiovasculares.
Por isso, quanto mais cedo a criança desenvolve uma relação equilibrada com a alimentação, maiores são as possibilidades de levar esses hábitos para as demais fases da vida.
“A infância é o momento em que os hábitos alimentares começam a ser construídos. Quando a criança entende, de forma leve e divertida, por que alguns alimentos devem fazer parte da rotina e outros precisam ser consumidos com menos frequência, ela passa a fazer escolhas mais conscientes, que podem refletir por toda a vida”, explica Loara Guimarães, nutricionista e responsável pelos projetos de educação nutricional na LemosPassos.
Além disso, atividades lúdicas ajudam a aproximar o conteúdo da realidade dos estudantes. Ao relacionar as cores do semáforo com os diferentes grupos de alimentos, a dinâmica facilita a compreensão de conceitos que poderiam parecer complexos para crianças.
Alimentação escolar também ensina
Mais do que oferecer refeições equilibradas, a alimentação escolar também exerce uma função educativa. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) orienta o planejamento das refeições por nutricionistas, de acordo com as necessidades de cada faixa etária. O programa prioriza alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, verduras, legumes e cereais, além de preparações balanceadas.
Nesse contexto, a escola se transforma em um espaço importante para a construção de hábitos alimentares.
“Educação alimentar não acontece apenas quando servimos uma refeição. Ela também está presente quando despertamos a curiosidade da criança, incentivamos a experimentar novos alimentos e mostramos, de maneira adequada à idade, como pequenas escolhas diárias fazem diferença para a saúde. A escola é um ambiente privilegiado para esse aprendizado porque faz parte da rotina das crianças e reúne alimentação, convivência e conhecimento”, avalia a gestora Claúdia de Jesus França Ribeiro, da Escola Municipal Anfilófio de Carvalho, onde o Projeto Semáforo Alimentar acontece no dia 11 de agosto.
Nutricionista atua além do cardápio

Além das atividades de educação nutricional, o nutricionista acompanha diferentes etapas relacionadas à alimentação escolar. Entre as atribuições estão o planejamento dos cardápios, o cálculo das necessidades nutricionais, a seleção dos ingredientes, o controle da qualidade das matérias-primas e o acompanhamento do preparo das refeições.
Dessa forma, o trabalho busca garantir que cada prato contribua não apenas para o crescimento e o desenvolvimento dos estudantes, mas também para a construção de hábitos alimentares que possam acompanhá-los ao longo da vida.
Ao levar a educação nutricional para dentro das escolas, iniciativas como o Semáforo Alimentar aproximam informação e cotidiano. Afinal, aprender a fazer escolhas mais equilibradas pode começar com uma brincadeira, mas os hábitos construídos na infância podem produzir efeitos por muitos anos.