Iniciativas desenvolvidas em diferentes regiões do país. Levando para a formação docente conhecimentos ancestrais que integram linguagem, espiritualidade e relação com a natureza
Por Redação

A palavra que cria mundos, o cuidado que integra corpo, espiritualidade e território, os conhecimentos transmitidos pelos sonhos, pelas narrativas ancestrais e pela relação com a natureza. Em diferentes regiões do país, projetos apoiados pelo Programa Escola Nacional Nego Bispo estão levando as cosmovisões indígenas para a formação de estudantes de licenciatura e professores da educação básica. Desenvolvidas em parceria com povos originários, as iniciativas valorizam conhecimentos ancestrais que compreendem a vida de forma integrada, reconhecendo a interdependência entre seres humanos, natureza, memória, espiritualidade e comunidade.
Da aldeia Pira Rupa, em Santa Catarina, aos territórios do povo Pataxó Hãhãhãe, na Bahia, passando por experiências desenvolvidas no Rio de Janeiro, os projetos demonstram como diferentes povos indígenas compartilham formas próprias de produzir conhecimento e interpretar o mundo. A Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais é uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC) coordenada nacionalmente pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA), que apoia 100 projetos de extensão voltados à formação de estudantes de licenciatura e professores da educação básica.
Saberes indígenas reafirmam a educação como espaço de cura e resistência
Inspirada no legado do intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, a iniciativa reconhece mestres e mestras de saberes tradicionais como agentes fundamentais dos processos educativos e promove o diálogo entre conhecimentos acadêmicos e ancestrais. Nesse contexto, entre os projetos voltados aos saberes indígenas, experiências desenvolvidas na Bahia, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro demonstram como diferentes povos e territórios compartilham visões de mundo que desafiam a separação entre ser humano e natureza, conhecimento e experiência, escola e comunidade. Além disso, apesar das especificidades de cada território, as iniciativas evidenciam pontos de convergência na valorização dos conhecimentos ancestrais. Assim, em comum, os projetos convidam educadores a conhecer outras formas de compreender a existência e, ao mesmo tempo, a incorporar perspectivas interculturais em suas práticas pedagógicas, fortalecendo uma educação mais plural, inclusiva e conectada à diversidade de saberes.
Na Bahia, o projeto “Pajelança e o Feminino Sagrado”, desenvolvido pelo Instituto Federal Fluminense (IFF) em parceria com a Pajé Rita Tupinambá, liderança espiritual do povo Pataxó Hãhãhãe, leva para a formação de mulheres e agentes culturais conhecimentos ancestrais relacionados à cura, espiritualidade e cuidado. Realizada nos territórios indígenas do sul baiano, a iniciativa compreende a pajelança como uma prática de conhecimento, resistência e bem viver, articulando saberes sobre ervas medicinais, corpo-território, espiritualidade e justiça reprodutiva.
Por meio de vivências, rodas de conversa e práticas tradicionais, o curso promove o diálogo entre saberes indígenas e acadêmicos, reafirmando as cosmociências como formas legítimas de compreender a vida. Segundo a coordenadora Flávia Coutinho Ferreira Sampaio, a proposta busca ampliar o alcance do trabalho desenvolvido por Pajé Rita e fortalecer redes de cuidado entre mulheres, demonstrando que a valorização dos saberes ancestrais também é uma forma de resistência às lógicas coloniais que historicamente marginalizaram os conhecimentos dos povos originários.
Sonhos e narrativas guaranis
Na aldeia Pira Rupa, localizada no território indígena do Morro dos Cavalos, em Santa Catarina, o curso “A palavra criadora do mundo: língua, sonho e narrativas guaranis” parte do entendimento de que a palavra possui força criadora. Desenvolvida em parceria com lideranças Guarani M’bya, a formação reúne educadores indígenas e não indígenas em atividades que incluem rodas de conversa, contação de histórias, cantos e vivências no território. A proposta apresenta a língua e as narrativas tradicionais como elementos que conectam memória, espiritualidade e identidade coletiva.
A coordenadora do projeto, Vanessa Elsas Porfírio de Faria, explica que a iniciativa nasceu de uma aproximação construída ao longo dos últimos anos entre o Instituto Federal de Santa Catarina e as comunidades indígenas da região. Segundo ela, o edital da Escola Nacional Nego Bispo possibilitou ampliar um trabalho que já vinha sendo desenvolvido e atender ao interesse das lideranças locais em fortalecer a formação de professores indígenas e difundir a cultura guarani.
Território, identidade e diálogo intercultural

Já no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, a iniciativa “A descoberta do ser na relação com o cosmos: o cuidado ancestral na educação infantil” propõe uma reflexão sobre o cuidado a partir dos conhecimentos indígenas. Nesse sentido, o projeto convida educadoras a repensarem práticas pedagógicas por meio de experiências ligadas aos ciclos da natureza, ao uso de plantas medicinais e à compreensão do corpo como parte de um sistema integrado de relações. Além disso, a formação é inspirada nos ensinamentos da mestra indígena Niara do Sol e busca ampliar a noção de cuidado para além dos aspectos técnicos, incorporando dimensões como espiritualidade, pertencimento e conexão com a Terra.
Também no Rio de Janeiro, o projeto “Kambona Uxo: Conversar o Território” promove o encontro entre licenciandos, educadores e saberes indígenas a partir de reflexões sobre território, identidade e relações étnico-raciais. Para isso, a formação conta com a participação do mestre de saberes Guilherme Haniel de Almeida, indígena do povo Puri, e foi construída em diálogo com estudantes interessados em aprofundar o conhecimento sobre a presença indígena na história e na sociedade brasileira. Assim, a expectativa dos organizadores é que a experiência contribua para transformar práticas pedagógicas e ampliar a compreensão sobre os povos originários nos espaços educacionais.
Em síntese, embora abordem temas distintos, os projetos compartilham uma mesma perspectiva: reconhecer os saberes indígenas como formas legítimas de interpretar o mundo e produzir conhecimento. Dessa forma, ao aproximar educadores das narrativas, práticas e modos de vida dos povos originários, as iniciativas reforçam a diversidade de conhecimentos presentes na sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, contribuem para a construção de uma educação mais plural, intercultural e conectada aos territórios. Por fim, essas experiências evidenciam o potencial transformador do diálogo entre diferentes saberes na formação de educadores e estudantes.