Diagnóstico aponta desafios relacionados à saúde, educação, saneamento, racismo estrutural e vulnerabilidade social.
Por Gilsimara Cardoso

O diagnóstico socioeconômico realizado pela pesquisadora e assistente social indígena Camila Tupinambá, no início deste ano, revelou um cenário marcado por desigualdades sociais, dificuldades de acesso à saúde, baixa renda e precariedade estrutural enfrentadas por mulheres negras marisqueiras da Ilha de Itaparica.
A pesquisa ouviu 174 mulheres atendidas pela Associação de Moradores, Pescadores e Marisqueiras da Ilha de Itaparica (AMPMI), em comunidades como Barro Branco, Misericórdia, Porto Santo, Mucambo, Alto das Pombas, Ponta de Areia, Alto Santo Antônio, Manguinhos, Bom Despacho e outras localidades do município de Itaparica.
O levantamento integra as ações do projeto “Empoderamento de Mulheres Negras Marisqueiras”, contemplado pelo Edital nº 21934 da Fundação Banco do Brasil. A iniciativa também conta com apoio da AMPMI e promove oficinas de letramento, inclusão digital, cultura, empreendedorismo, corte e costura, beneficiamento de pescados e fortalecimento comunitário.
A pesquisa identificou que grande parte das mulheres sustenta sozinha a família e enfrenta jornadas exaustivas. Entre a mariscagem, os cuidados domésticos e a criação dos filhos. Os dados mostram que 70,7% das famílias vivem com até um salário mínimo e, em 64,2% dos lares, apenas uma pessoa é responsável pelo sustento da casa, muitas vezes a própria mulher entrevistada.
Além disso, o diagnóstico revelou forte dependência de programas sociais. Segundo a pesquisa, 76,4% das mulheres recebem Bolsa Família e 71,8% acessam o Seguro Defeso como principal complemento de renda.
Pesquisa fortalece a luta das marisqueiras por direitos e políticas públicas

Camila Tupinambá destacou a importância do diagnóstico socioeconômico realizado junto às mulheres marisqueiras da Ilha de Itaparica como ferramenta de transformação social e fortalecimento de direitos.
“Ao reunir dados sobre renda, escolaridade, saúde, saneamento, trabalho, território e condições de vida, o diagnóstico permite compreender de forma concreta quais são as principais demandas e vulnerabilidades enfrentadas pelas mulheres marisqueiras, evidenciando processos estruturais marcados por desigualdades de gênero e raça”, afirmou.
De acordo com ela, a pesquisa também contribui para a construção de políticas públicas mais alinhadas à realidade local. “O diagnóstico socioeconômico constitui-se como instrumento de incidência política e transformação social, ao contribuir para a formulação de ações e políticas públicas mais eficazes, capazes de responder às demandas concretas das mulheres marisqueiras e fortalecer seus direitos, autonomia e qualidade de vida”, completou.
Saúde física e mental aparece entre os principais desafios

Na área da saúde, o diagnóstico revelou que 40,8% das participantes convivem com algum tipo de adoecimento crônico ou recorrente. Entre os problemas mais relatados aparecem dores osteomusculares, hipertensão, diabetes, ansiedade, depressão e outros transtornos ligados à saúde mental.
Os dados da pesquisa associam esses adoecimentos às condições de vida enfrentadas pelas mulheres negras marisqueiras. Marcadas por baixa renda, trabalho informal, jornadas exaustivas e dificuldades estruturais presentes nas localidades onde vivem.

Para aprofundar a discussão, o Jornal Atualize procurou o especialista Sandro Correia, Doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social. De acordo com ele, é fundamental compreender o adoecimento dessas mulheres dentro das relações entre trabalho, raça e desigualdade social.
“O trabalho desenvolvido por essas mulheres envolve longas jornadas, exposição ao sol, contato constante com água contaminada, esforço físico repetitivo e precarização das condições de trabalho. Fatores que produzem impactos diretos sobre a saúde física e mental”, afirma.
Ao analisar os dados do diagnóstico, Dr. Sandro também ressalta que as fragilidades estruturais enfrentadas pelas comunidades tradicionais influenciam diretamente a qualidade de vida das mulheres pesquisadas. “Essa discussão se conecta diretamente às condições de saúde das mulheres pesquisadas e às fragilidades estruturais enfrentadas pelas comunidades tradicionais da Ilha de Itaparica”, declara.
A pesquisa aponta ainda que a precariedade sanitária impacta não apenas a saúde coletiva, mas também o ecossistema que sustenta a mariscagem e a pesca artesanal, atividades fundamentais para a subsistência de muitas famílias da Ilha de Itaparica.
Entre os principais problemas relatados pelas participantes aparecem dificuldades relacionadas ao saneamento básico, ausência de rede de esgoto, irregularidades no abastecimento de água nas localidades onde vivem. Essas fragilidades estruturais afetam diretamente a qualidade de vida das mulheres e ampliam os desafios enfrentados diariamente pelas comunidades tradicionais.
Educação, inclusão digital e autonomia social entram no debate

Na educação, a pesquisa identificou que 92% das mulheres não estudam atualmente, embora 66,7% afirmem ter desejo de voltar à sala de aula. Entre os principais obstáculos aparecem falta de tempo, cuidados com os filhos, distância das escolas e responsabilidades domésticas.
Além disso, o diagnóstico revelou limitações no acesso à inclusão digital com limitações no acesso à internet. Segundo o estudo, o uso da tecnologia entre as participantes se concentra principalmente no celular e em aplicativos básicos como WhatsApp.
Para Rafael Tupinambá, coordenador do projeto, o acesso à informação e à formação profissional representa um dos principais desafios enfrentados pelas mulheres marisqueiras. “O diagnóstico revela que grande parte dos problemas enfrentados pelas mulheres são acesso à informação de qualidade e formação. Esse projeto ataca esse problema, encurtando a distância e burlando as dificuldades enfrentadas para se acessar informação”, afirma.
O levantamento também revelou interesse das participantes em oficinas ligadas à economia criativa, empreendedorismo, cultura e geração de renda. Além disso, temas como segurança pública, educação, saneamento e infraestrutura básica aparecem entre as principais demandas das comunidades.
Delimitação territorial e perfil social das participantes entram na análise do especialista

Dr. Sandro também chamou atenção para a importância de uma delimitação territorial mais precisa dentro da pesquisa. Segundo ele, embora o estudo utilize a expressão “Ilha de Itaparica” ao longo do texto, os dados apresentados concentram-se no município de Itaparica.
“A pesquisa utiliza frequentemente a expressão ‘Ilha de Itaparica’ como referência territorial ampla, porém os dados, tabelas, gráficos e recortes empíricos apresentados concentram-se especificamente no município de Itaparica, sem contemplar o município de Vera Cruz em sua totalidade territorial e social”, explica.
Apesar da observação metodológica, o pesquisador reconheceu a relevância social do levantamento e destacou pontos importantes identificados pela pesquisa, especialmente relacionados ao perfil das mulheres participantes.
“Os dados relacionados à autodeclaração racial demonstram uma presença expressiva de mulheres pardas e negras. Indicando uma predominância de mulheres afrodescendentes e afroindígenas na composição social analisada. Esse dado é extremamente relevante para compreender as relações entre gênero, raça, território e vulnerabilidade social”, afirma.
Outro aspecto ressaltado pelo especialista envolve o estado civil das participantes. “A predominância de mulheres solteiras sugere uma forte presença de mulheres como chefes de família. Elemento socialmente significativo e que impacta diretamente nas dinâmicas de trabalho, cuidado, renda e reprodução social”, destaca.
Geração de renda, autonomia e enfrentamento da vulnerabilidade social

Ao analisar os dados do diagnóstico, Sandro Correia concorda com Camila e destaca também que a pesquisa aponta para a necessidade de fortalecer políticas públicas de assistência social, educação infantil, saúde e geração de renda voltadas às mulheres negras marisqueiras da Ilha de Itaparica. “Estamos falando também de ausência de planejamento territorial e de políticas públicas contínuas. Essas mulheres não são invisíveis, elas sustentam economicamente e culturalmente seus territórios, mas ainda vivem sob condições de vulnerabilidade que revelam o abandono histórico do poder público”.
Já Rafael Tupinambá afirmou que as oficinas do projeto buscam promover não apenas qualificação profissional, mas também autonomia social e política das participantes.
“No contato com oficinas de letramento, inclusão digital, beneficiamento de pescados, corte e costura, música e capoeira. As mulheres poderão desenvolver atividades integradas que produzirão resultados imediatos. As oficinas não buscam só a formação profissional, mas também promover interação e reflexão sobre os problemas estruturais que empurram essas mulheres para a vulnerabilidade social.”
Nesse sentido, a proposta do projeto vai além da formação profissional e aposta na autonomia e cidadania das participantes. “Também teremos aulas de músicas e oficinas de audiovisual com o retorno do cineclube da Misericórdia. Ao final dos três meses, temos certeza de que essas mulheres estarão mais preparadas para reivindicar seus direitos e enfrentar a situação de vulnerabilidade social em que se encontram”, concluiu Rafael Tupinambá.
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