CasaenBici, fios Invisíveis entre Colômbia e Paraguai
Por Nazareth Reales

Existe uma forma superficial de habitar um espaço: simplesmente passar por ele. No entanto, quando se pedala com a convicção de conhecer verdadeiramente um território, o asfalto deixa de ser apenas uma faixa cinzenta e se transforma em um pergaminho onde passado e presente dialogam em voz alta.
Neste trecho do caminho paraguaio, não estamos apenas cruzando uma geografia de terra avermelhada; estamos, sobretudo, atravessando uma memória viva que pulsa em cada cumprimento, em cada porta que se abre e nas imponentes estruturas que moldam a paisagem atual.
O que a escola não nos contou ?

Durante anos, os sistemas educacionais tradicionais de nosso continente nos ensinaram uma história fragmentada, limitada às fronteiras nacionais. Falaram-nos de acontecimentos locais e de batalhas internas, mas esconderam os fios invisíveis que unem dramaticamente as nações sul-americanas.
Aqui, sob o sol do Paraguai, encontramos os ecos da Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), o conflito mais devastador e sangrento da história da América do Sul. Um povo inteiro defendeu sua pátria com uma coragem inimaginável. Crianças e jovens tornaram-se o último escudo de uma nação ferida, sofrendo uma perda demográfica tão profunda que quase apagou a identidade de todo um país.
Como professora colombiana, percorrer estas terras significa confrontar esse silêncio pedagógico. Afinal, por que nunca ouvimos falar da Guerra da Tríplice Aliança na escola? Por que a dor de um povo irmão é frequentemente omitida dos livros que formam nossas novas gerações?
O paradoxo da estrada: a história que a escola esqueceu, a estrada nos ensinou

Enquanto a educação formal muitas vezes silencia determinados acontecimentos, a estrada se encarrega de preservá-los por meio da memória e da gratidão de um povo.
Colômbia: a Pátria Irmã do Paraguai

Foi justamente no momento mais sombrio da história paraguaia, quando o país parecia destinado a desaparecer do mapa, que emergiu um dos maiores gestos de solidariedade da história colombiana.
Em 1870, amparado pela Lei 78, o Congresso da Colômbia ergueu sua voz e realizou um ato extraordinário: decretou a dupla cidadania para qualquer paraguaio que chegasse ao território colombiano caso sua nação fosse desmembrada.
Tratava-se de um apoio moral e diplomático sem precedentes no continente. Mais do que isso, era uma declaração de que nenhum paraguaio ficaria sem lar enquanto a Colômbia existisse.
Hoje, mais de 150 anos depois, essa semente de fraternidade continua florescendo ao longo da rota da CasaenBici. Quando os moradores descobrem que somos uma família colombiana viajando sobre duas rodas, a relação muda instantaneamente. Já não somos vistos como estrangeiros; somos recebidos como representantes da “Pátria Irmã”, aquela que estendeu a mão quando o mundo lhes dava as costas.
Itaipu: um benefício construído a um alto custo

Entretanto, a memória não é feita apenas de relatos humanos; ela também se materializa no concreto.
Durante esta jornada de observação e aprendizado, nos deparamos com a Usina Hidrelétrica de Itaipu, uma das obras de engenharia mais impressionantes do planeta. Ver a força das águas controlada pela ação humana é uma experiência impactante. Afinal, a usina produz a energia que ilumina milhões de lares e movimenta indústrias inteiras ao longo das fronteiras.
Por outro lado, o olhar de uma educadora em bicicleta não pode se encantar apenas com as luzes do desenvolvimento. Itaipu também nos lembra dos profundos impactos ambientais exigidos pelo progresso.

Para erguer esse gigante, a construção da usina inundou extensas áreas do Bosque Atlântico do Alto Paraná (BAAPA), uma das ecorregiões mais diversas e ameaçadas do mundo. Além disso, a barragem alterou o curso natural do Rio Paraná e provocou transformações irreversíveis na vegetação nativa.
É justamente aí que surge um dos maiores desafios do nosso tempo:
Como promover o desenvolvimento de que nossas sociedades necessitam sem destruir o jardim biológico que sustenta a vida?
A prova de fogo: diante da onda polar

As reflexões históricas precisaram ser interrompidas quando o clima assumiu o protagonismo.
Conforme alertavam os boletins meteorológicos, uma intensa massa de ar polar avançou pela região, derrubando as temperaturas para níveis críticos.
Estávamos em um posto de combustível, completamente expostos ao tempo, quando a tempestade mostrou toda a sua força. Foi uma noite de resistência absoluta.
O vento soprava com tanta violência que parecia querer arrancar nossa barraca, nossa única trincheira. Enquanto o inverno iniciava seu ciclo de forma incomum, aprendemos que os equipamentos técnicos são importantes, mas que a verdadeira proteção na estrada está na união familiar.
Entre rajadas que faziam a sensação térmica despencar, permanecemos juntos, aguardando que o amanhecer nos concedesse uma trégua.
O calor humano que venceu o frio
Quando o frio ameaçava interromper nossa jornada, surgiu a família de Maria, em Hernandarias.
O apoio que recebemos não foi apenas um gesto de hospitalidade; foi uma resposta histórica carregada de significado.
Ao nos ver pedalando em família, sem equipamentos adequados para enfrentar temperaturas tão baixas, abriram não apenas as portas de sua casa, mas também o calor de sua fogueira e de seu coração.
Compartilhar aquele momento ao redor do fogo foi o antídoto perfeito contra a dureza da noite. Recebemos cobertores grossos, casacos e o acolhimento que só a solidariedade humana é capaz de oferecer.
Naquele instante de profunda gratidão, compreendemos o verdadeiro significado do que os historiadores chamam de “decreto de irmandade”. Nós o sentimos no calor das roupas emprestadas, na chama acesa da fogueira e na generosidade de pessoas que, mesmo sem nos conhecer, decidiram cuidar de nós porque carregávamos, em nossas bicicletas, o nome de um país irmão.
Pedalar para compreender
Viajar de bicicleta nos proporciona algo raro: a possibilidade de compreender que a verdadeira transformação da identidade acontece quando conseguimos conectar a história profunda da solidariedade internacional com os desafios ecológicos e sociais do presente.
Por isso, seguimos pedalando com o coração ampliado pela irmandade entre paraguaios e colombianos, com a mente atenta às complexidades do território e com a certeza de que cada quilômetro nos torna mais conscientes de nossa responsabilidade com a história e com a Terra.
Ciudad del Este: o encontro dos mundos

Hoje encerramos este capítulo às portas de Ciudad del Este, um ponto de encontro magnético onde Paraguai, Brasil e Argentina se encontram.
Trata-se de um vibrante centro comercial, um fascinante cruzamento de culturas onde convivem idiomas, costumes e identidades de três nações.
Chegamos a este território fronteiriço não apenas com muitos quilômetros percorridos, mas também com a alma repleta de gratidão.
Sobrevivemos à tempestade, aprendemos com a história e, acima de tudo, comprovamos que a rede humana que nos sustenta é muito mais forte do que qualquer inverno.
Agora, resta uma pergunta:
O que nos reserva esta nova travessia de fronteiras?
Como sempre, a resposta será encontrada na próxima pedalada.
A Educação em Movimento segue adiante, aquecida pela solidariedade de um povo irmão.
Nos vemos no próximo capítulo do Jornal Atualize