Quando o sofrimento vira alerta, e não espetáculo

Por Gilsimara Cardoso

A saúde mental no Brasil – Foto/ Ilustrativa

Na noite do último domingo (7), uma mulher de 26 anos em surto psicótico tentou tirar a própria vida e acabou provocando uma explosão em sua residência no Jaraguá, zona norte de São Paulo.

Devido ao forte cheiro de gás, o Corpo de Bombeiros foi acionado para apoiar a ocorrência e, no momento da explosão, o impacto atingiu três policiais militares, três bombeiros e a própria mulher. Ela foi detida em flagrante, permaneceu hospitalizada sob escolta e acabou liberada após audiência de custódia.

A Polícia Civil investiga o caso e aguarda laudos para esclarecer as circunstâncias, enquanto o episódio reacende o debate sobre a precariedade da saúde mental no Brasil.

A saúde mental no Brasil, Gérson de Melo Machado – Foto: Reprodução Redes Sociais

O episódio no Jaraguá ocorre dias após outro caso que expôs, mais uma vez, a fragilidade da rede de saúde mental no Brasil: a morte de Gérson de Melo Machado, jovem de 19 anos diagnosticado com esquizofrenia, que entrou na área de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa.

Após relatar medo de que “as pessoas batessem nele”, segundo familiares. Assim como a mulher de 26 anos que estava em surto psicótico. Gérson vivia sem o suporte contínuo necessário para lidar com crises profundas.

Crises emocionais como tema de saúde pública

Os dois episódios reforçam como transtornos mentais graves seguem sendo tratados sem a estrutura adequada. Resultando em situações extremas que poderiam ser evitadas com uma política de cuidado mais robusta, acessível e preventiva.

Mas especialistas alertam que episódios desse tipo são manifestações graves de sofrimento psíquico, não motivo para prisões e piadas. A reação da sociedade marcada por deboches e julgamentos, evidencia a dificuldade em reconhecer crises emocionais como tema de saúde pública. Essa falta de compreensão se repete diariamente nas comunidades e nos serviços que deveriam acolher quem precisa de ajuda.

O Desamparo na Saúde Mental em cidades menores

Saúde Mental, Lindnalva Alves – Foto: Acervo Pessoal

A realidade de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, evidencia como a fragilidade da rede de saúde mental se traduz em sofrimento concreto. Após a saída do psicólogo, Rafael Mendes, do CAPS municipal, pacientes relataram incerteza sobre atendimentos.

A paciente Lindnalva Alves conta que o silêncio das autoridades a deixa angustiada. “Até agora ninguém entrou em contato para informar se haverá atendimento, se não haverá, ou se outro médico estará disponível. No dia 17 eu vou comparecer, mas não sei se serei atendida para receber a medicação que preciso para melhorar meu sono.”

Lindnalva também descreve um sentimento de invisibilidade. “Quando a gente fala sobre nossas necessidades de saúde, parece que só dão atenção se estivermos ‘rasgando dinheiro e comendo merda’. Acham que é frescura, quando na verdade é uma necessidade real.” Segundo ela, a falta de profissionais é crítica. “Sinto falta de mais médicos na nossa cidade, principalmente no Cone Sul. Hoje o atendimento é feito por apenas um profissional, e ainda assim apenas em Mar Grande.”

Saúde Mental: Relações terapêuticas importantes

Rafael Mendes – Foto: Acervo Pessoal

O psicólogo Rafael Mendes confirma que muitos pacientes sentiram insegurança com a saída dele da rede pública, destacando que “a construção de vínculo e o acolhimento são partes fundamentais do tratamento em saúde mental”. Com mais de 15 anos de atuação, ele reforça que a permanência dele por quase três anos em Vera Cruz ajudou a consolidar relações terapêuticas importantes, inclusive em situações de vulnerabilidade, “a abordagem extramural também faz parte da rede de apoio”.

De acordo com ele, a interrupção repentina de um acompanhamento pode ter consequências sérias. “O impacto emocional é grande, porque a ruptura gera desassistência, agravamento da crise, baixa adesão ao tratamento e dificuldade de fazer transferência para outro profissional”. Rafael ainda alerta que negativas e práticas pouco acolhedoras, ainda presentes em alguns serviço podem intensificar o sofrimento psíquico, sobretudo em casos de comportamento suicida, reforçando a necessidade de equipes preparadas e vínculos contínuos.

Maternidade e negligência, o peso emocional vivido por Heloísa Ribeiro

Heloísa Ribeiro – Foto: Acervo Pessoal

A escritora Heloísa Ribeiro, mulher preta e periférica, explica como a ausência de cuidado adequado durante a primeira gestação dela desencadeou uma depressão pós-parto. “Eu me senti sozinha, desamparada , criticada . No momento em que toda e qualquer mulher deve ser cuidada, amparada e ouvida eu fui excluída e massacrada.
Essa negligencia contribuiu diretamente para meu quadro de depressão pós parto que foi muito difícil passar, mas enfim foi possível .

Heloísa defende que a resposta à crise de saúde mental precisa começar pela criação de uma rede de apoio sólida, capaz de acompanhar mulheres desde o pré-natal. “Médicos adequados , que a informação seja acessível , também aos familiares. Grupos de rodas de conversas ao menos de 15 em 15 dias, no SUS mesmo
que ainda gestante possam acessar o CAPS, saúde mental e também o NASF, apoio a saúde da família.
Ensinar manobras para driblar e lidar com a ansiedade. Espaço real de fala , sem julgamentos – pois nos grupos reduzira a sensação de solidão e abandono. Trocas de experiências , oficinas de artesanato, poesias, musicoterapia , etc
.”

Ela destaca ainda a importância de integrar gestantes aos serviços como CAPS e NASF, além de promover espaços de escuta sem julgamentos e atividades terapêuticas que ajudem a enfrentar a ansiedade. Segundo Heloísa, quando esse cuidado existe, a maternidade, planejada ou não, “deixa de ser encarada como um peso e passa a ser compreendida como um novo começo.” Afirma.

Das calçadas ao recomeço, Marcos Chicano fala sobre reconstruir a própria vida

Marcos Chicano – Foto: Maycom Mota

O fotógrafo Marcos Chicano descobriu o limite da dor quando viveu a solidão das ruas. “Vivenciei a pior dor que existe, que é a solidão das ruas. Se a pessoa não tiver uma saúde mental boa, ela acaba se entregando mais e mais.” Chicano conta que o apoio familiar foi quase inexistente. “Se eu disser que tive apoio familiar, estou mentindo. Depois da minha alta, só meus irmãos ficaram comigo.” Afirma.

Mas a comunidade e instituições sociais fizeram diferença. “Tive muito apoio de ONGs, voluntários, instituições. Gente que conheci no período mais difícil, nas calçadas.” Ele optou por não usar medicação psiquiátrica. “Nunca fiz uso de medicamentos. Foi uma decisão minha, mas cada caso é um caso.”

Um sistema enfraquecido, especialistas alertam para retrocessos

Leonardo Pinho – Foto: Acervo Pessoal

Para Leonardo Pinho, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME), o país ainda está reconstruindo uma rede que foi profundamente prejudicada. “O Brasil passou nos dois governos anteriores, por um processo de contra reforma psiquiátrica, na prática, um processo de desfinanciamento da ampliações dos serviços comunitários de cuidado em liberdade, como os Centros de Atenção Psicossocial e uma retomada do financiamento dos manicômios e do eletrochoque. Esses 6 anos continuos de desfinanciamento, quebrou o ciclo histórico de mais de duas décadas de ampliação constante dos equipamentos públicos perto dos locais de moradia. Atualmente, esse financiamento retomou, mas ainda, temos muitos buracos de cobertura.

Mesmo com melhorias recentes, ele aponta falhas graves. “precisamos ampliar muito essa modalidade e garantir atendimento 24h. Agora, se falarmos da área rural a cobertura ainda é muito baixa, precisamos desenvolver estratégias novas levar o cuidado de saúde mental para as populações rurais.” Afirma.

Leonardo também alerta para o uso excessivo de medicamentos no país. “Outra grande preocupação é o crescimento assustador de uso de remédios psiquiátricos no país, a medicalização da sociedade é muito grande, inclusive em crianças. Nesse cenário, precisamos de colocar o tema da saúde mental nas prioridades em todas as esferas governamentais para garantir cuidado e principalmente atendimento e acolhimento também aos familiares.

Autocuidado, prevenção e consciência.

Patricia Villela – Foto: Acervo Pessoal

A neuropsicanalista Patricia Villela, que atende na rede privada em Vera Cruz, reforça que o primeiro passo é perceber os sinais. “Invista em autoconhecimento. Faça check-ins diários. Pergunte a si mesmo como está se sentindo. O que é previsível pode ser prevenido.”

Ela também destaca o impacto da tecnologia. “O equilíbrio digital é essencial. Estabeleça horários livres de tela e evite o ‘doomscrolling’.”

O termo “doomscrolling descrito por Patrícia, traduzido como “rolagem da desgraça” ou “rolagem do juízo final”, descreve o hábito compulsivo de passar longos períodos consumindo notícias negativas, alarmantes ou angustiantes nas redes sociais. Mesmo percebendo o impacto emocional desse comportamento, muitas pessoas continuam rolando a tela, presas a um ciclo de ansiedade, estresse e busca incessante por atualizações.

O fenômeno ganhou força durante a pandemia, quando o excesso de informações, muitas vezes trágicas, intensificou esse padrão e transformou o doomscrolling em um termo amplamente reconhecido para descrever a sobrecarga mental causada pelo consumo contínuo de más notícias.

Veja as orientações da neuropsicanalista Patrícia Villela

Sobre o corpo, Patrícia explica. “O Movimento e o Cuidado Físico são antidepressivos e ansiolíticos naturais.
Mantenha-se em Movimento: Não precisa ser uma maratona! Uma caminhada de 30 minutos, alongamento ou dançar na sala já libera endorfinas, que melhoram o humor.
Priorize o Sono: O sono não é um luxo, é uma necessidade biológica para o processamento de emoções e a consolidação da memória. Tente manter uma rotina de sono consistente e evite telas antes de dormir.

Nutrição Consciente: O que você come afeta seus níveis de energia e humor. Tente manter uma dieta equilibrada e lembre-se de que a hidratação é crucial para o funcionamento cerebral.

Com relação ao trabalho, prevenir o burnout exige reconhecer que produtividade não pode vir à custa da saúde. Criar limites claros, a chave aqui é a Arte de Pausar e Desconectar. O burnout é a exaustão total causada pelo excesso de demanda.
O Poder do “Não”: Aprenda a dizer “não” a compromissos ou tarefas que sobrecarregam sua agenda e seus recursos. Proteger seu tempo é proteger sua mente.
Micro-pausas: Durante o dia de trabalho, a cada hora, levante-se, olhe para longe da tela por 5 minutos ou tome uma água. Pequenas pausas previnem a exaustão acumulada.
Separe o Trabalho da Vida Pessoal: Ao final do expediente, crie um ritual para “desligar” o modo trabalho, seja com um banho, ouvir música ou mudar de
roupa.


E reforça que a busca por ajuda é fundamental. “Procure um profissional quando o sofrimento começar a interferir na vida diária. Terapia é preventiva.” Conclui.

Um país que ainda precisa aprender a cuidar

Foto/ Ilustrativa

Do caso de Gerson, que expôs a dificuldade coletiva de enxergar sofrimento, ao drama silencioso dos pacientes do CAPS de Vera Cruz; das dores de Heloísa às ruas percorridas por Marcos Chicano. Das análises de Leonardo às orientações de Patrícia, uma verdade se impõe. A saúde mental no Brasil não é prioridade suficiente, embora seja urgência absoluta.

O país segue tratando crise como espetáculo, dor como frescura e cuidado como favor.
Enquanto isso, milhares de brasileiros precisam apenas do que deveria ser básico: escuta, acolhimento e acesso ao tratamento.

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