Homenagem ao ator na abertura do Novembro Negro, na Bahia, reuniu gerações, artistas e movimentos sociais em uma celebração da ancestralidade, da resistência e do protagonismo da população negra.

Na noite de 5 de novembro de 2026, a Concha Acústica do Teatro Castro Alves transformou-se em um grandioso território de celebração da ancestralidade, da memória e da resistência negra. Tivemos a honra de participar de um espetáculo memorável, que integrou a programação de abertura do Novembro Negro na Bahia, em homenagem ao consagrado ator Antônio Pitanga.
O encontro reuniu gerações, linguagens artísticas e expressões culturais que reverberaram muito além do palco. Afinal, homenagear Antônio Pitanga significa reconhecer uma trajetória que rompeu barreiras, abriu caminhos e projetou a potência da cultura afro-brasileira do Pelourinho para o mundo.
Durante aproximadamente três horas, acompanhamos uma verdadeira efervescência artística. O audiovisual, a música, o canto coral, a orquestra e as múltiplas interpretações construíram uma experiência arrebatadora, na qual cada momento reservava uma nova surpresa.
Graça Onasilê, primeira cantora do Ilê Aiyê, Melly, Mariene de Castro e as mulheres da Orquestra Afrosinfônica deram brilho e grandiosidade à apresentação. Além disso, a presença de Toni Tornado também abrilhantou a celebração. Confesso: fiquei sem ar diante de tamanha riqueza estética, musical e cultural.
Parabéns ao Bando de Teatro Olodum pela participação e pela força de uma produção que transformou a arte em instrumento de afirmação da identidade negra.
Representatividade negra e participação política marcam a celebração

A representatividade também ocupou seu lugar de destaque. A Sociedade Protetora dos Desvalidos, Negra Jhô, UNEGRO, afoxés, blocos afros, representantes de povos e comunidades de matriz africana marcaram presença, reafirmando a importância das instituições, dos movimentos e das personalidades que constroem cotidianamente a história da população negra.
No campo político, a deputada estadual Olívia Santana esteve ao lado da deputada federal Benedita da Silva. As duas mulheres representam a luta por direitos, reconhecimento e participação social.
Portanto, não se tratava apenas de um espetáculo, mas de um acontecimento político-cultural, capaz de reunir diferentes gerações em torno de uma causa comum: a valorização da nossa história e da nossa existência.
Educação e protagonismo negro

Um dos aspectos mais revolucionários da iniciativa foi a participação de estudantes da rede pública estadual, que tiveram a oportunidade de conhecer de perto a trajetória de personalidades negras que conquistaram espaços na cultura brasileira.
Proporcionar às novas gerações o contato direto com essas referências significa romper com o apagamento histórico e ampliar horizontes. Afinal, precisamos ensinar que pessoas negras não ocupam apenas posições secundárias na história. Pelo contrário, somos protagonistas, intelectuais, artistas, criadoras, pesquisadoras e agentes de transformação.
Nesse sentido, a Lei Federal nº 10.639/2003 estabelece que o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira deve integrar o currículo escolar. Entretanto, essa legislação precisa ultrapassar os limites dos livros didáticos e ganhar vida nos palcos, nas telas, nos museus, nas escolas e nos espaços de convivência.
Reconhecer a trajetória de Antônio Pitanga significa, sobretudo, compreender que representatividade também envolve política pública, oportunidade e reparação histórica.
Por isso, precisamos de mais pessoas pretas na teledramaturgia, no audiovisual, no teatro, nas capas de revistas e nas páginas dos jornais, ocupando espaços com narrativas positivas, plurais e comprometidas com o antirracismo.
Não basta aparecer: é preciso protagonizar, dirigir, produzir, escrever e decidir quais histórias serão contadas. Mais do que isso, precisamos contar aquelas que, durante séculos, permaneceram silenciadas.
Precisamos mostrar ao mundo e às futuras gerações que existimos, resistimos, criamos e transformamos.
Ubuntu: a força da coletividade e da cultura negra

Como nos ensina o princípio africano Ubuntu: “Sou porque nós somos”. E, se somos porque somos coletividade, agora somos milhares de agentes culturais, homens e mulheres que fazem da cultura uma ferramenta de emancipação na Bahia e no Brasil.
Ao registrar essa experiência, faço minhas as palavras de Andreia Macedo, que parabenizou a presidenta do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN), a secretária Ângela Guimarães, e toda a equipe da SEPROMI pela realização de um evento tão representativo e pujante.
Como destacou Deia, a Secretaria consegue surpreender e superar as expectativas, reafirmando seu compromisso com a valorização da população negra.
Diante disso, fica o reconhecimento a todas as pessoas que tornaram esse encontro possível.
Antônio Pitanga: do Pelourinho ao Mundo não representa apenas uma homenagem a um artista extraordinário. É, acima de tudo, um manifesto de pertencimento, memória, identidade e futuro.
Porque, quando a nossa história ocupa o palco, a nossa ancestralidade ganha voz, a juventude encontra referências e o mundo inteiro precisa aprender a nos enxergar.
