Segunda- feira, 10 de agosto de 2026.

Há momentos em que a distância deixa de ser medida em quilômetros. Ela passa a ser medida em ligações que não completam, em mensagens que não chegam e em uma tela que permanece em silêncio enquanto, do outro lado do continente, você tenta descobrir se as pessoas que ama estão bem.
Estamos longe da Colômbia. Mas, na segunda-feira, 10 de agosto, quando a terra começou a tremer, sentimos que a distância desapareceu.
Somos colombianos. Nossa família, nossos amigos e nossa história estão lá.
Por isso, durante aqueles primeiros momentos, tudo o que queríamos era saber como eles estavam.
Além disso, a comunicação ficou difícil em algumas das regiões afetadas. Do Brasil, a impotência de não poder estar ali talvez tenha sido uma das partes mais difíceis de enfrentar.
Porque, quando uma tragédia acontece, queremos fazer alguma coisa.
Chegar. Abraçar. Queremos ajudar.
Entretanto, às vezes, tudo o que podemos fazer é esperar uma resposta.
A terra tremeu

Em 10 de agosto de 2026, um terremoto de magnitude 7,4, com epicentro próximo a San José del Palmar, no Chocó, sacudiu boa parte do oeste e do centro da Colômbia.
O tremor foi sentido em cidades como Cali, Pereira, Manizales, Quibdó e Buenaventura, entre muitas outras.
Inicialmente, os primeiros balanços apontavam pouco mais de uma centena de vítimas. Porém, os números cresceram ao longo das horas.
Até 14 de agosto, os relatórios mais recentes apontavam 285 mortos, 3.975 feridos e 379 desaparecidos. Além disso, mais de 102 mil pessoas enfrentavam diretamente os efeitos do terremoto, enquanto dezenas de milhares de casas apresentavam danos ou haviam sido destruídas.
Enquanto acompanhávamos as notícias do Brasil, muitas pessoas na Colômbia ainda procuravam seus familiares.
As equipes de resgate continuavam procurando sobreviventes entre os escombros.
E, acima de tudo, ainda havia esperança.
Em uma tragédia dessa dimensão, cada vida encontrada representa um motivo para continuar procurando.
Mas, por trás de cada número, existe uma história.
Uma família. Um lar.
Uma vida que mudou em questão de segundos. E isso é algo que os números jamais conseguem contar completamente.
“E agora, onde essas pessoas vão morar?”

Enquanto tentávamos entrar em contato com nossos familiares, algumas pessoas em Cali decidiram não ficar apenas esperando.
Entre elas estava @Derianmontabicicleta, um ciclista de Cali que se juntou às ações de ajuda e colocou sua cargo bike a serviço da emergência.
Perguntamos a ele como estava vivendo aqueles dias.
Suas palavras nos fizeram compreender que o terremoto não terminou quando a terra parou de tremer.
Para muitas pessoas, naquele momento começava uma nova etapa.
Uma etapa na qual seria preciso descobrir como recomeçar.
Derian nos contou:
“Literalmente, escapamos de uma catástrofe realmente pior.”
Depois, fez uma pergunta que continua ecoando: “E todas as pessoas que moravam ali, agora, para onde vão?”
Porque algumas pessoas não perderam apenas uma parede, um teto ou um prédio.
De uma hora para outra, perderam o lugar que chamavam de lar.
“Elas estão perdendo tudo da noite para o dia, diante dos próprios olhos.”
Talvez essa seja uma das imagens mais difíceis de compreender quando estamos longe.
Não se trata apenas de reconstruir prédios.
Trata-se, sobretudo, de reconstruir vidas.
Uma cidade que decidiu ajudar

Em meio à dor, porém, também surgiu uma outra Colômbia.
A Colômbia se organiza.
Pergunta o que as pessoas precisam.
Leva comida.
Transporta ferramentas.
Remove escombros.
Acompanha quem precisa.
E, sobretudo, não espera encontrar a solução perfeita para começar a ajudar.
Derian contou que, a partir de experiências anteriores, como o estallido social e a pandemia, percebeu como Cali consegue se transformar em uma única comunidade.
E usou uma expressão que ficou ecoando em nós:
“Cali se tornou uma só, como um povo unido por todos.”
Talvez isso também represente uma forma de resiliência.
Quando algumas estruturas falham, outras aparecem, e nem sempre conseguimos enxergá-las imediatamente.
São as redes humanas.
Os vizinhos. Os voluntários. Os trabalhadores. Os ciclistas.
As pessoas que simplesmente perguntam:
O que vocês precisam? Onde posso ajudar? Quem posso levar? Onde é preciso chegar?
Uma bicicleta também pode ser uma ferramenta de ajuda

Essa parte da história nos toca especialmente.
Nós escolhemos a bicicleta como nossa maneira de percorrer o mundo.
Com ela, transportamos nossa casa, nossos sonhos, nossos filhos, nossos pertences e nossa história.
Entretanto, em Cali, durante esses dias, uma cargo bike ganhou outro significado.
Derian contou que sua principal tarefa consistia em transportar.
Transportar aquilo que fosse necessário.
Levar. Buscar. Mover. Ajudar.
Em uma emergência, essa capacidade aparentemente simples pode adquirir uma importância enorme.
Uma bicicleta pode levar alimentos, transportar uma ferramenta.
Pode aproximar uma pessoa e se transformar em uma ferramenta de solidariedade.
E talvez seja justamente por isso que essa história nos emocione tanto.
Porque uma bicicleta não precisa mudar o mundo inteiro para fazer a diferença.
Às vezes, basta ajudar uma pessoa.
De Bogotá também chega solidariedade
A história, porém, não acontecia apenas em Cali.
De Bogotá, Fabián, do perfil @alforjasbogota, contou como a comunidade de ciclistas também começou a se organizar para ajudar.
Nos pontos de arrecadação, as pessoas levavam alimentos e recursos destinados às regiões afetadas.
Fabián contou:
“Estamos recebendo doações no ponto de arrecadação Rancho Memoria, em Bosa, e na prefeitura. Os grupos de ciclistas estão muito unidos, todos muito organizados, recolhendo alimentos e recursos para o Chocó e para Cali. As pessoas em Bogotá são muito ativas e estão se movimentando muito.”
Gostamos de ouvir essa parte da história porque ela nos lembra que uma emergência pode atravessar um país inteiro.
Não apenas por meio do medo.
Mas também por meio da solidariedade.
Cali ajuda. Bogotá ajuda.
Pessoas de outras cidades se organizam.
E, de diferentes lugares, surgem mãos dispostas a fazer alguma coisa.
Talvez isso também seja a Colômbia.
A terra não é a única coisa que treme

Enquanto o país tenta responder à emergência, outras situações continuam acontecendo ao mesmo tempo.
Incêndios florestais atingem diferentes regiões. Em meados de agosto, as autoridades mantinham várias frentes ativas e continuavam trabalhando para controlar as chamas em diferentes departamentos.
Ao mesmo tempo, o vulcão Puracé permanece em alerta laranja devido ao aumento de sua atividade.
É importante, porém, esclarecer que o Serviço Geológico Colombiano informou que a atividade do vulcão não possui relação com o terremoto de 10 de agosto.
Ou seja: Enquanto algumas comunidades tentam se reconstruir depois do terremoto, outras lutam contra o fogo.
Enquanto algumas pessoas procuram seus familiares entre os escombros, outras comunidades acompanham com preocupação a atividade vulcânica.
Além disso, alguns territórios enfrentam dificuldades históricas de comunicação e acesso.
Como nos disse Derian: “A questão preocupante é Buenaventura, porque está incomunicada.”
Então surgiu outra frase dele que, para nós, resume perfeitamente o significado da solidariedade: “Estamos vendo como chegar a Buenaventura porque precisamos chegar até eles. Não podemos deixá-los sozinhos.”
Enquanto isso, o cenário político também se movimenta

Enquanto o país enfrenta a emergência, outras decisões importantes também acontecem.
Em 11 de agosto, surgiram relatos sobre operações militares contra estruturas do ELN no Catatumbo. Posteriormente, apareceram denúncias de impactos sobre a população civil.
As diferentes versões geraram controvérsia. Por isso, precisamos distinguir os fatos das acusações apresentadas pelos diferentes atores.
No dia seguinte, os Estados Unidos anunciaram a entrada da Colômbia em uma coalizão regional contra os cartéis e indicaram uma nova etapa de cooperação militar.
O secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, afirmou que a Colômbia havia solicitado cooperação para operações militares conjuntas contra grupos armados. Ele também anunciou um pacote de assistência na área de segurança.
Até aquele momento, o governo colombiano ainda não havia apresentado publicamente uma explicação detalhada sobre o alcance dessas operações.
Por isso, acreditamos que precisamos fazer uma pausa antes de tirar conclusões.
Não para apontar culpados. Não para alimentar divisões. Mas para fazer uma pergunta como cidadãos:
Quando um país enfrenta simultaneamente uma emergência humanitária, incêndios, um alerta vulcânico e outras questões de segurança, como o Estado distribui seus recursos, sua atenção e suas prioridades?
Essa pergunta não significa que uma emergência invalide as demais.
Significa lembrar que, por trás de cada decisão pública, existem pessoas que precisam de respostas.
Famílias precisam de moradia. Pessoas precisam de água. Comunidades precisam de acesso. Feridos precisam de atendimento. E territórios pedem que ninguém os esqueça.
Existem coisas que não conseguimos explicar

Talvez por isso esses dias também tenham nos feito pensar muito.
Pensamos nessa necessidade que muitas vezes sentimos de parar e perguntar o que estamos fazendo com nossas vidas.
Agora, depois de acompanhar o que acontece na Colômbia, essas perguntas ganharam outro significado.
Quando a terra treme, muitas coisas que pareciam importantes deixam de ter importância.
A casa.
O carro.
O dinheiro.
Os planos.
As discussões.
As preocupações do cotidiano.
E, de repente, só uma pergunta importa:
As pessoas que amo estão bem?
Talvez isso também represente uma forma de despertar. Não precisamos atribuir ao terremoto um significado espiritual.
Também não precisamos acreditar que ele aconteceu por alguma razão.
A terra se move porque a natureza possui seus próprios processos.
Entretanto, podemos decidir o que aprender depois de vê-la se mover.
E talvez uma dessas lições seja esta: Nem sempre conseguimos controlar o que acontece.
Mas podemos decidir como vamos responder.
Mesmo de longe, podemos estar presentes
Por isso, queremos parar aqui para agradecer. A todas as pessoas que nos escreveram.
Àqueles que perguntaram por nossa família, que quiseram saber sobre nossos amigos.
Aos que nos enviaram mensagens de diferentes lugares, que nos ofereceram uma palavra de carinho.
E, especialmente, àqueles que, mesmo sem serem colombianos, sentiram nossa preocupação como se fosse deles.
Estar longe nos fez sentir impotentes. Porém, cada mensagem nos lembrou que a distância geográfica nem sempre significa distância emocional. E talvez isso também seja comunidade.
Hoje, nosso olhar está voltado à Colômbia
Pensamos em quem perdeu alguém, em quem ficou sem sua casa e nas famílias que ainda aguardam notícias de parentes e amigos desaparecidos.
Nossa solidariedade acompanha os heróis e voluntários que trabalham entre os escombros, levam alimentos, transportam ajuda e enfrentam caminhos difíceis em busca dos lugares mais necessitados.
Também lembramos dos ciclistas que colocaram suas bicicletas a serviço da emergência.
Pensamos em Derian. Em Fabián. Em todos que simplesmente decidiram fazer alguma coisa.
E, sobretudo, nas comunidades que continuam esperando ajuda em regiões onde chegar ainda representa um desafio.
Porque, como disse Derian: “Precisamos chegar até eles. Não podemos deixá-los sozinhos.”
Talvez essa seja a imagem que queremos guardar destes dias. Não apenas a imagem de uma Colômbia ferida.
Mas a imagem de uma Colômbia que, em meio à dor, ainda consegue se levantar, se organizar e estender a mão.
A Colômbia que treme, é a mesma Colômbia que enfrenta incêndios em alguns territórios.
Uma Colômbia que observa seus vulcões com preocupação, também é atravessada por decisões políticas e militares cujas consequências ainda conheceremos.
Mas, acima de tudo, uma Colômbia formada por milhões de pessoas que sentem, que sofrem a angústia de esperar. Pessoas que não querem deixar outras pessoas sozinhas e se ajudam voluntariamente.
E, do Brasil, a milhares de quilômetros da nossa terra, só podemos dizer: Colômbia, estamos longe, mas estamos com vocês. Que nossa força chegue às nossas famílias.
Aos nossos amigos. A Cali. Ao Chocó. A Buenaventura. A Pereira. A Manizales. A Bogotá.
A cada comunidade afetada. E a todos aqueles que hoje precisam de uma mão para voltar a se levantar.
Porque talvez não possamos impedir que a terra trema. Não possamos controlar o fogo ou interromper todos os conflitos.
E não possamos estar fisicamente em cada lugar onde alguém precisa de nós. Mas podemos decidir o que fazer quando tudo treme.
Podemos ajudar, acompanhar, perguntar, ouvir e estender a mão.
E, algumas vezes, como Derian, podemos simplesmente subir em uma bicicleta e perguntar:
Onde é preciso chegar?
Porque talvez a verdadeira força de um país não esteja apenas na capacidade de resistir quando tudo treme.
Ela também está na capacidade de se levantar.
De se organizar, de chegar até quem está mais distante.
E de não deixar ninguém sozinho.
Colômbia, estamos longe. Mas continuamos fazendo parte de você.