Tudo começou com uma simples cera no ouvido. Simples. Pelo menos era o que eu imaginava.

Por Maria Cutucão

16/07/2026

Foto Ilustrativa criada por IA

Como toda brasileira formada em Medicina pela Universidade Google, resolvi tratar em casa. Pinguei um remédio para amolecer a cera. A cera não amoleceu. Quem começou a amolecer foi o lado esquerdo do meu rosto.

Da orelha ao queixo, tudo dormente.

Foi aí que recorri à minha segunda faculdade: o ChatGPT.

Expliquei os sintomas e recebi uma resposta nada poética:

— Procure uma UPA imediatamente. Isso pode não ser apenas uma inflamação. É preciso descartar até um AVC.

Na mesma hora pensei: “Pronto. Minha orelha resolveu fazer um estágio em Neurologia.”

No dia seguinte fui para a UPA de Tairu.

Fui muito bem recebida. A recepcionista foi gentil. A médica, extremamente educada.

Até que veio a notícia.

— “Infelizmente não consigo olhar seu ouvido.”

— Por quê?

— “Porque não temos o aparelho.”

Naquele instante descobri que, no SUS, às vezes o paciente chega com um ouvido e sai apenas com uma receita.

Sem olhar o ouvido, começaram a surgir os medicamentos.

Perguntei:

— Mas a senhora não vai examinar?

Ela respondeu que não era possível.

Achei justo. Difícil examinar um ouvido invisível.

Fui orientada a procurar o posto de saúde de Tairu.

Cheguei ao posto.

Lá havia o aparelho.

Faltava apenas um detalhe.

O médico.

Pensei no aparelho, o aparelho pensou em mim. Um romance impossível, quase platônico.

Sugeri:

— Posso levar o aparelho até a UPA? Deixo meu documento aqui.

Responderam:

—” Está sem bateria.

O aparelho virou uma lenda urbana. Igual à caviar: dizem que existe, mas ninguém vê. Eu só ouvi falar dele baixinho… literalmente, porque a orelha esquerda pediu demissão.

Novo destino: Mar Grande, a 20,4 km de distância. Fui de táxi, ouvindo Marisa Monte. Claro, com o ouvido direito.

Na Upa de Mar Grande, encontrei finalmente, um aparelho na unidade.

A médica olhou meu ouvido por poucos segundos e decretou:

“Está bastante infeccionado.

Finalmente alguém conhecia minha orelha pessoalmente.

Receita na mão.

Amoxicilina.

Antibiótico para pingar.

Injeção.

Tudo certo.

Até eu perguntar:

— E o otorrino?

Ela respondeu:

— “Você agenda no posto.

A palavra “agenda” no SUS tem um significado filosófico.

Ela não informa uma data.

Ela representa uma esperança.

Saí para buscar os medicamentos.

No posto consegui apenas um. E foi o mais barato.

Os outros estavam de férias.

Fui para a farmácia.

Quase desmaiei.

Uma caixa de amoxicilina: R$ 95.

Pensei que junto com o antibiótico viesse um plano de saúde.

Pesquisei o mesmo medicamento em farmácias de São Paulo.

R$ 45, 50 e 55.

Em Vera Cruz, aparentemente, a bactéria também sofre com a inflação.

Procurei atendimento particular, ” otorrino, uma vez por mês, a consulta é R$170″

Voltei à UPA.

Perguntei à assistente social:

— Tem algum otorrino?

Resposta:

— “Tem que esperar a regulação.”

Perguntei:

— Posso marcar pelo aplicativo? Pelo QR Code?

Resposta:

— “Acho que não… vá no posto.

Descobri que o QR Code existe, mas vive uma vida paralela. Alguns conhecem. Outros nunca ouviram falar dele. Principalmente as pessoas que trabalham no próprio Sus.

Peguei um táxi compartilhado para voltar para casa.

Achei que minha aventura tinha acabado.

Doce pensamento.

Um passageiro olhou para mim e deu o diagnóstico definitivo:

“Moça… eu procuraria um cardiologista.

O sorriso, então, deu um jeito de escapar da nossa boca.

Como último recurso, resolvi consultar um amigo italiano. Não é médico… mas resolvi muito BO. Mostrei a receita, expliquei os sintomas, apresentei os antibióticos como quem leva um processo para análise de um especialista. Ele olhou tudo com muita seriedade, aprovou o tratamento e decretou: “Agora faça a sua parte. Diminua o banho. Vocês, brasileiros, tomam banho demais. É muita água entrando no ouvido!” Eu tentei argumentar. Ele emendou outra teoria simples digna de um prêmio Nobel : “E, quando for lavar o cabelo, tome banho de cabeça para baixo. Funciona muito melhor.” O sorriso, então, deu um jeito de escapar da nossa boca.

Depois de atravessar UPA, posto de saúde, farmácia, regulação e até um passageiro que me encaminhou para um cardiologista, descobri que a solução internacional para a minha orelha era, aparentemente, tomar menos banho.

Pronto.

Saí de casa com uma inflamação no ouvido.

Passei pela neurologia, clínica médica, farmácia, regulação, tecnologia, economia…

Pela informação e também pela desinformação.

E terminei na cardiologia e no chuveiro.

Minha orelha fez um tour completo pelo sistema de saúde.

No fim das contas, percebi que meu problema não era apenas uma infecção.

Era descobrir que, muitas vezes, o paciente não percorre um caminho para ser atendido.

Ele faz uma verdadeira peregrinação.

E, curiosamente, em nenhum momento faltou boa vontade dos profissionais.

Faltou o básico: equipamento funcionando, medicamentos disponíveis, acesso ao especialista e informação integrada.

A moral da história é simples.

No SUS, às vezes a inflamação é no ouvido.

Mas a dor é do sistema inteiro. E se você passar por isso, não leve um guarda-chuva, porque depois de todo o ocorrido, ainda perdi o meu!

Você sabe o que é uma crônica?

A crônica é um gênero textual curto, geralmente escrito em prosa, que retrata acontecimentos, situações e observações do cotidiano. Com uma linguagem simples, leve e, muitas vezes, informal, busca entreter o leitor, ao mesmo tempo em que provoca reflexões, críticas ou novos olhares sobre fatos comuns da vida diária.