Há sonhos que são construídos ao longo de anos. O nosso tinha água, selva e uma fronteira.
Por Nazareth Reales

Desde que começamos esta viagem de bicicleta na Colômbia, as Cataratas do Iguaçu ocupavam um lugar especial em nossa imaginação. Eram um daqueles destinos que surgiam nas conversas durante as subidas mais difíceis, nas noites de acampamento e nos mapas que desenhávamos para imaginar o futuro.
“Um dia chegaremos lá.”
E esse dia finalmente chegou.
Depois de dois anos de travessia, milhares de quilômetros percorridos e três países cruzados sobre duas rodas, estávamos ali. A poucos quilômetros de uma das paisagens mais impressionantes da América do Sul.
Mas a vida, que tem uma curiosa maneira de escrever suas próprias histórias, decidiu mudar o roteiro.
“De repente, as cataratas e os planos deixaram de ser importantes.”

Até mesmo a viagem deixou de ser importante.
Porque, quando a saúde de um filho entra em cena, todo o resto desaparece.
O que veio em seguida foram dias de incerteza, hospitais, exames, perguntas sem respostas e longas horas de espera. Dias que não estavam escritos em nenhum roteiro. Dias que nenhum viajante inclui em seus planos quando sonha em percorrer o continente de bicicleta.

E, ainda assim, também foram dias que nos ensinaram algo que as cataratas jamais poderiam nos ensinar.
Ensinaram-nos o verdadeiro significado de viajar.
Muitas pessoas acreditam que uma viagem é medida pela quantidade de lugares visitados.
Nós também acreditávamos nisso um dia.
Mas, durante aqueles dias, descobrimos que as viagens mais importantes nem sempre acontecem diante de paisagens extraordinárias.

Às vezes acontecem dentro de um quarto de hospital.
outras de uma conversa inesperada.
Às vezes quando compreendemos que não estamos tão sozinhos quanto imaginávamos.
Enquanto Thomas se recuperava, começaram a chegar mensagens de diferentes lugares.
Mensagens de familiares.
De amigos.
De pessoas que nos acompanham há anos.

E de outras que nunca vimos pessoalmente, mas que acompanham nossa história de algum lugar da Colômbia, do Paraguai, do Brasil ou de qualquer outro ponto do mapa.
Algumas perguntavam sobre sua saúde.
Outras enviavam orações.
Outras simplesmente escreviam poucas palavras.
“Estamos com vocês.”
E, de repente, algo extraordinário aconteceu.

Compreendemos que esta viagem já não pertence apenas a nós.
Há muito tempo ela deixou de ser apenas a história de uma família pedalando pela América do Sul.
Também é a história de uma comunidade que decidiu nos acompanhar.
Pessoas que celebram nossas alegrias como se fossem suas.
E que aparecem silenciosamente quando os momentos difíceis chegam.
Talvez por isso, quando finalmente recebemos as boas notícias e Thomas recebeu alta médica, sentimos algo ainda mais profundo do que alívio.
Sentimos gratidão.

Gratidão pela saúde, pela família, pelos médicos, por todos que estiveram presentes e por aqueles que dedicaram alguns segundos do seu dia para enviar uma mensagem de apoio.
Porque entendemos que a verdadeira riqueza desta viagem nunca foram os quilômetros percorridos.
Foram as pessoas encontradas pelo caminho.
As Cataratas do Iguaçu continuam lá.
Esperando por nós.
E agora sabemos que, mais cedo ou mais tarde, poderemos visitá-las.
Mas já não temos pressa.
Porque, antes de contemplar uma das maravilhas naturais mais impressionantes do continente, a vida quis nos lembrar de outra maravilha muito mais difícil de encontrar:
A solidariedade humana.

E quando finalmente voltamos para casa, quando voltamos a nos sentar juntos ao redor de uma mesa, quando voltamos a fazer planos e imaginar os próximos quilômetros, sentimos que havíamos conquistado uma vitória muito especial.
Não contra uma doença.
Não contra o medo.
Mas contra a incerteza.
Como em uma longa partida de xadrez, avançamos movimento após movimento, sem saber exatamente qual seria o desfecho.
Até que chegou o instante em que pudemos respirar tranquilos novamente.

E então, sim. Xeque-mate.
Não para a vida, porque ela sempre encontra novas maneiras de nos surpreender.
Mas para aquele momento difícil que tentou nos parar.
Agora voltamos a olhar o mapa.
Voltamos a sonhar.
Voltamos a fazer planos.
E as cataratas continuam lá, esperando a sua vez.

Como tantas vezes acontece nas viagens e na vida, descobrimos que aquilo que fomos buscar não era necessariamente o que precisávamos encontrar.
Porque, às vezes, acreditamos saber exatamente qual é o próximo destino, qual é o melhor caminho ou o que deveria acontecer para que tudo dê certo.
E, no entanto, a vida costuma ter uma perspectiva muito mais ampla do que a nossa.
Nós chegamos a Foz do Iguaçu sonhando em contemplar uma das maravilhas naturais mais impressionantes do planeta.
A vida, por outro lado, nos convidou a parar para contemplar algo diferente: o valor da saúde, a força da comunidade e o amor daqueles que caminham ao nosso lado, mesmo quando não podem estar fisicamente presentes.
Talvez viver também consista nisso.

Em fazer a nossa parte com dedicação, avançar com confiança, construir nossos sonhos e caminhar em direção a eles com o coração aberto.
Mas também em aprender a abrir mão do controle sobre os resultados.
Porque existem momentos em que a vida sabe algo que nós ainda não conseguimos compreender.
E, quando deixamos de resistir ao que está acontecendo, muitas vezes descobrimos que aquilo que parecia um obstáculo era, na verdade, um ensinamento.
Hoje seguimos sem conhecer as cataratas.
Mas saímos desta experiência com algo muito mais valioso.
A certeza de que, quando a vida nos pediu para parar, ela também nos mostrou exatamente aquilo que precisávamos enxergar.
Nos vemos no próximo capítulo do Jornal Atualize com a @casaenbici.