Durante quase dois anos, viajando de bicicleta, aprendemos a responder a mesma pergunta repetidamente: Onde vamos dormir esta noite?
Por Nazareth Reales

Às vezes, a resposta surgia em uma praça, sob um teto emprestado, em um posto de combustível ou no quintal de uma família que acabávamos de conhecer.
A incerteza havia se tornado parte da nossa rotina.
Por isso, ao chegarmos a Foz do Iguaçu, nos deparamos com um desafio diferente.

Pela primeira vez em muito tempo, não procurávamos um lugar para passar apenas uma noite. Procurávamos um lugar para ficar.
Pode parecer uma diferença pequena. Mas, para uma família que percorreu milhares de quilômetros de bicicleta, ela representa uma mudança profunda. Já não se tratava apenas de encontrar abrigo. Tratava-se de construir, temporariamente, um lar.
O inverno havia chegado com força. As temperaturas caíam cada vez mais e começávamos a compreender que insistir em dormir na barraca poderia se transformar em um risco para a nossa saúde.
A viagem estava nos pedindo algo que até então havíamos evitado: parar.
Não foi uma decisão fácil!

Existe uma sensação estranha quando se passa muito tempo vivendo em movimento. Depois de tantos meses avançando, ficar parado pode parecer até mais difícil do que continuar pedalando.
No entanto, as pessoas que foram surgindo pelo caminho começaram a nos mostrar que parar também faz parte da viagem.
Primeiro veio a ajuda de Leonardo.
Depois apareceram dona Maria e seu esposo, Ademir.
Mais tarde, Adriano, filho de dona Maria e Ademir.
E, enquanto buscávamos soluções, amigos, seguidores e conhecidos também começaram a mobilizar contatos para nos ajudar.
Pessoas que surgem quando menos se espera

Pouco a pouco, vivemos novamente algo que a estrada já nos ensinou muitas vezes. Os grandes projetos parecem individuais quando observados de longe. Mas, quando olhamos com atenção, descobrimos que eles sempre são sustentados por muitas mãos.
A história de uma família que atravessa países de bicicleta costuma chamar atenção pelos quilômetros percorridos. No entanto, a distância não é o que realmente importa. O que fica na memória são os encontros pelo caminho.
Pessoas que surgem quando menos se espera. Uma refeição oferecida com generosidade. Um espaço cedido para descansar. Uma ligação feita no momento certo. Um gesto de cuidado ao perguntar como ajudar.
Pequenas atitudes capazes de transformar uma cidade desconhecida em um lugar familiar. Quando finalmente encontramos um lugar para passar o inverno, sentimos alívio.

Pela primeira vez em muito tempo, podíamos deixar os alforjes em um canto sem pensar em carregá-los novamente no dia seguinte.
Podíamos planejar. Temos tempo para descansar. Podíamos imaginar os próximos passos. Sentíamo-nos seguros. Mas não sabíamos que o destino havia preparado uma reviravolta capaz de mudar completamente nossos planos.
Mal começávamos a aproveitar a tranquilidade quando a estrada nos deu uma lição que não estava em nenhum mapa. Mas essa… essa é uma história difícil, e ainda estamos nos preparando para contá-la.
Quer conhecer o desfecho dessa história?
Esta crônica é apenas o começo. Em nosso novo vídeo, mostramos o caos da fronteira, a busca desesperada por esse lar temporário e o momento do acidente que colocou toda a nossa fé à prova.
Nos vemos no próximo capítulo do Jornal Atualize, com a @casaenbici.