Criado em julho de 2025, o Programa Escola Nacional Nego Bispo fortalece a presença dos saberes tradicionais na formação de futuros professores, na qualificação de docentes da educação básica e nas ações comunitárias.

Por Redação

Escola Nacional Nego Bispo – Fotos: Divulgação

Narrativas transmitidas por mulheres quilombolas no Pará. Memórias preservadas pela oralidade em Minas Gerais. Histórias compartilhadas por mestres e mestras em comunidades de São Paulo. Além disso, conhecimentos ancestrais transmitidos por meio dos tambores e da dança tradicional no Tocantins. Embora desenvolvidas em diferentes regiões do país, essas iniciativas têm em comum a valorização dos saberes quilombolas como fonte de conhecimento, identidade e resistência. Dessa forma, contribuem para fortalecer a transmissão intergeracional de saberes e, ao mesmo tempo, ampliar a presença das epistemologias quilombolas nos processos educativos. Como resultado, esses conhecimentos passam a integrar a formação de estudantes de licenciatura e de professores da educação básica.

As ações fazem parte do Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais. Iniciativa criada pelo Ministério da Educação (MEC) e coordenada nacionalmente pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA). Inspirado no legado do intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo. O programa apoia 100 projetos de extensão em todo o país e promove o encontro entre conhecimentos acadêmicos e saberes ancestrais, reconhecendo mestres e mestras tradicionais como formadores e protagonistas dos processos educativos.

Do Pará ao Tocantins, passando por Minas Gerais e São Paulo. Os projetos evidenciam como a memória coletiva, a oralidade, as manifestações culturais e os modos de vida quilombolas podem contribuir para a construção de práticas pedagógicas mais plurais e conectadas aos territórios. Nesse contexto, as iniciativas convergem para um propósito comum. Fortalecer a transmissão intergeracional de conhecimentos e ampliar a presença das epistemologias quilombolas nos espaços de formação docente.

Tecendo memórias

Escola Nacional Nego Bispo – Fotos: Divulgação

No Quilombo de Calados, em Baião, no Pará, o curso “Mulheres que Tecem Memórias. Narrativas Femininas Afro no Quilombo de Calados” reconhece as narrativas femininas afro como expressões fundamentais de memória, ancestralidade e resistência cultural. Por meio de rodas de conversa, registros orais e atividades de documentação colaborativa. A formação valoriza as experiências das mulheres quilombolas e fortalece a transmissão de saberes entre gerações. Oficinas de escrita, fotografia, audiovisual e registro de narrativas contribuem para a construção de acervos comunitários e memoriais digitais que preservam a história coletiva da comunidade.

Em Várzea da Palma, no Norte de Minas Gerais, o curso “Vozes da Ancestralidade. Memórias e oralidades quilombolas” reúne educadores, estudantes e membros de comunidades tradicionais em torno da valorização da oralidade como forma de produção de conhecimento. A proposta nasceu da presença de comunidades quilombolas na região de Lassance e da necessidade de fortalecer a formação de professores que atuam nesses territórios.

Segundo a proponente do projeto, Márcia Moreira Custódio. A iniciativa foi construída em parceria com secretarias municipais de educação, lideranças quilombolas e o professor Pedro Almeida, mestre de saberes tradicionais quilombolas. Além disso, a proposta busca aproximar os conhecimentos ancestrais do ambiente escolar por meio do diálogo entre diferentes gerações. Para ela, trabalhar memória e oralidade é fundamental para fortalecer a identidade das comunidades e, ao mesmo tempo, garantir que as histórias dos mais velhos continuem sendo transmitidas às novas gerações. Nesse sentido, a iniciativa estimula a participação de mestres e mestras nos espaços escolares, transformando suas narrativas em instrumentos de formação, valorização cultural e preservação da memória coletiva.

Palavra falada como território de resistência

No bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí, em São Paulo o curso “Vozes do Quilombo. A oralidade que semeia memórias” transforma barracões, espaços culturais e territórios de religiosidade em ambientes de aprendizagem. A proposta reúne estudantes, educadores, artesãos e moradores em vivências que valorizam congadas, cantos, narrativas e práticas culturais transmitidas ao longo das gerações.
Inspirado no pensamento de Nego Bispo, o projeto entende a oralidade como uma “escrita viva”, inscrita no corpo, na terra e na experiência coletiva. Mais do que registrar histórias, a iniciativa fortalece a autoria quilombola sobre suas próprias narrativas e combate processos históricos de apagamento cultural.

Já na Comunidade Quilombola Claro, Prata e Ouro Fino, em Paranã, Tocantins, o projeto “A reafirmação da identidade quilombola pelas batidas dos tambores e a dança da sussa” utiliza as artes e ofícios tradicionais como ferramenta de formação e preservação cultural. A iniciativa ensina jovens a confeccionar tambores de couro, aprender os toques tradicionais e praticar a dança da sussa, elementos centrais dos festejos religiosos e culturais da comunidade.

Segundo a proponente do projeto, Adelma Ferreira de Souza, a proposta surgiu a partir de anos de convivência e pesquisa na comunidade e, sobretudo, da percepção de que era necessário criar mecanismos para transmitir esses conhecimentos às novas gerações. Além disso, a iniciativa busca fortalecer práticas culturais que desempenham papel central na preservação da memória coletiva quilombola. Para ela, os tambores e a sussa são elementos essenciais da identidade cultural dessas comunidades e, por isso, sua preservação depende do protagonismo dos mestres de saberes tradicionais. Nesse contexto, são esses guardiões da memória os responsáveis por compartilhar conhecimentos construídos e aperfeiçoados ao longo de gerações.

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