Celebração reafirma tradições, expõe ausências marcantes e fortalece os laços comunitários em Barra Grande
Por Gilsimara Cardoso

Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Na última terça-feira, 3 de fevereiro, Barra Grande viveu mais um momento decisivo para sua história cultural com a realização do Presente de Barra Grande 2026. Embora a comissão organizadora tenha demonstrado disposição e entrega, a celebração ocorreu sob um clima diferente. Desta vez, a festa carregou silêncio, emoção e a sensação de que algo faltava.

Dona Sonildes e Claudete (em memória) no Presente de Barra Grande 2025 – Foto: Oni Sampaio
Desde os primeiros momentos, a comunidade sentiu a ausência de gestos simbólicos que tradicionalmente marcam o festejo. As fitas não foram cortadas pelas mãos de Dona Sonildes Santana (em memória) e de Dona Herondina (em memória). Figuras centrais da celebração ao longo dos anos. A falta dessas mulheres atravessou o cortejo e reforçou a dimensão coletiva da perda.

Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Ainda assim, a organização manteve o cuidado com os detalhes. As cestas ganharam formas pelas mãos de Ginaldo Santos, ornamentador conhecido nas comunidades pela atuação nos festejos religiosos. Ele madrugou na Associação dos Moradores de Barra Grande para garantir que todos os presentes estivessem prontos a tempo.
Família de Dona Janete mantém tradição do Presente

Família de Dona Janete , Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Ao mesmo tempo, Dona Janete Neves, apoiadora histórica do Presente, celebrava seu aniversário, mas manteve a atenção voltada para a tradição. Mesmo em um dia que lhe pertencia, concentrou esforços na preparação da cesta dedicada a Iemanjá. Na noite do dia 2 de fevereiro, antes mesmo de soprar as velas, Dona Janete passou mal e seguiu para Salvador, onde precisou ser internada na UTI. Apesar da ausência, a família se reuniu, cantou os parabéns e entregou a cesta à organização do Presente, transformando o momento delicado em gesto de continuidade.
O esforço coletivo sustenta a tradição

Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Diante das adversidades, a festa seguiu graças ao empenho coletivo. Os pescadores Renato Oliveira, Enoilton Azevedo ( Ito) e Joel Pinho deixaram a rotina da pesca para se dedicar integralmente à organização do evento, reafirmando o compromisso da comunidade com a preservação do Presente de Barra Grande.

Voa Voa Maria no Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Como ocorre todos os anos, os sambas de roda, Voa Voa Maria e Raízes de Gameleira participaram do cortejo. As sambadeiras de Gameleira cantaram, dançaram e conduziram os presentes até o mar, mantendo viva uma tradição transmitida entre gerações. Já o samba de roda Voa Voa Maria fez uma apresentação brilhante e animou o público após a entrega do presente.
O legado de Claudete Santos no Presente de Barra Grande

Claudete Santos (em memória) no Presente de Barra Grande 2025 – Foto: Oni Sampaio
Em 2026, no entanto, a emoção ganhou um peso diferente. A sambadeira Claudete Santos (em memória),fundadora do samba de roda Raízes de Gameleira, não esteve presente. Falecida recentemente, ela deixou um vazio difícil de preencher.

Filhas de Claudete, Esmeraldina Maria de Sousa e Ana Claudia de Sousa -Foto: Gilsimara Cardoso
Para dar continuidade ao legado, as duas filhas dela participaram do festejo. Enfrentando o desafio de estar no evento pela primeira vez sem a presença da mãe.

Raízes da Gameleira no Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Com isso, o Presente de Barra Grande 2026 marcou também o primeiro retorno do samba de roda Raízes de Gameleira após a partida de Claudete, tornando o momento ainda mais simbólico. ‘ A gente vai dá continuidade em tudo que ela criou, porque ela deixou um legado muito bonito, tudo que mainha construía era com muita alegria. Ela gostava de viver acompanhada de pessoas, era uma estrela. Relata Ana Claudia de Sousa, filha de Claudete.
Além de inspirar as filhas, Claudete ensinou e motivou muitas pessoas da comunidade. Silvana Ribeiro aprendeu a profissão com Claudete que por muitos anos vendeu acarajé e cachorro quente para criar as filhas.
“Comecei a fazer acarajé com ela quando tinha 15 anos. Eu sou uma grande baiana do acarajé graças a Claudete, meu acarajé é bem conhecido em Salvador, o Acarajé da Sil existe graças a tia Claudete.”
Pertencimento que ultrapassa fronteiras

Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
O esforço coletivo manteve o Presente de Barra Grande em movimento e reforçou a dimensão comunitária do festejo. Entre gestos de cuidado, silêncios compartilhados e memórias evocadas, a celebração reafirmou que a tradição se sustenta na presença de quem a constrói todos os anos.

Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Nesse contexto, o Presente também atravessou fronteiras em 2026. Pela primeira vez, uma turista italiana, Irene Pirrone, caminhou junto ao cortejo e se deixou conduzir pela experiência. Ela já conhecia o Presente de Iemanjá do Rio Vermelho, em Salvador, mas encontrou na Ilha de Itaparica um sentido diferente para a tradição. Em Barra Grande, segundo ela, o festejo não se apresenta como espetáculo, mas como vínculo vivo entre as pessoas.
“Meu primeiro ano aqui em Barra Grande. É muito forte vê tudo isso, é muito lindo vê como a comunidade celebra essa festa, e essa é uma energia que a gente sente no corpo”, afirmou Irene.
A fala sintetizou um sentimento que atravessou toda a celebração: o Presente de Barra Grande acontece menos para ser visto e mais para ser vivido.
Apoio institucional amplia a estrutura, mas aponta desafios

Jorge Rasta no Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Neste ano, a estrutura do evento ganhou reforço. A organização contou com um palco maior, viabilizado com apoio da gestão municipal. O Legislativo também atuou na articulação para garantir a realização do Presente.
O presidente da Câmara Municipal, Jorge Rasta, acompanhou o cortejo e destacou a importância da continuidade do festejo para a preservação cultural de Barra Grande.
“Ações como essa é o que gera a identidade do povo… E a gente não pode deixar também de homenagear hoje a atual comissão que constantemente junto com o Legislativo e junto com o Poder Executivo vem fortalecendo. O Legislativo tem esse papel de não deixar as tradições morrer, de estar ali cobrando da prefeitura. O prefeito é um só, então não consegue acompanhar tudo tão de perto, mas liberou todas as demandas que nós solicitamos aqui para comunidade. ” Ressalta Jorge Rasta.
Além do poder público, o comércio local contribuiu com apoio direto, somando esforços à dedicação da comissão organizadora. Assim, o Presente de Barra Grande reafirmou sua origem: nasce da homenagem e segue como um caminho de continuidade do legado cultural da comunidade.
O luto coletivo transforma saudade em memória viva

Dona Herondina no Presente de Barra Grande – Foto: Débora Monteiro
A saudade marcou profundamente o Presente de Barra Grande de 2026. As ausências se fizeram presentes nos gestos contidos, nos silêncios prolongados e na mudança do ritmo que, mesmo assim, não interrompeu a caminhada coletiva. O luto deixou de ser apenas sentimento individual e passou a ocupar o espaço comum, compartilhado por quem organizou, participou e acompanhou a celebração.
Nesse contexto, os laços com a comunidade não se limitaram a quem organiza ou participa do festejo; alcançaram também quem narra a história. Há três anos, o Jornal Atualize registra o Presente de Barra Grande com escuta atenta e presença constante. Em 2026, coube à comissão transformar a dor em permanência, garantindo que, mesmo atravessada pelo luto, a festa seguisse seu curso.
A memória dos pescadores reafirma o legado

Pescador Flávio no Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
O festejo também homenageou a memória do pescador Fláviano Martins, conhecido como Flávio. No ano anterior, ele observava a maré e o vento sentado no banco da praça principal, próximo à igreja. Em 2026, o banco não estava mais ali, nem Flávio, somente o irmão dele. Fausto São Bernardo estava na praia, atento ao barco azul que Flávio utilizou por muitos anos.

Renato Oliveira, Enoilton Azevedo (Ito) e Fausto São Bernardo no Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Flávio não esteve presente fisicamente, mas permaneceu vivo nas lembranças e nas palavras compartilhadas. “Os melhores pescadores daqui de Barra Grande é você, Ito e Joel, costumava dizer.” Afirma Fausto São Bernardo, irmão de Flávio.
Ito confirmou essa relação ao falar emocionado sobre a ausência do amigo. “Ele sabia tudo sobre o vento e o mar. Previa o vento antes mesmo de chegar à praia, só de olhar as ondas. Sinto muita falta dele. Flávio deixa um legado gigante”, afirmou.

Dona Ana no Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Assim, o Presente de Barra Grande 2026 seguiu marcado pela saudade coletiva. Dona Herondina e Dona Sonildes, que costumavam enfeitar juntas os presentes, não dividiram esse momento neste ano. Dona Ana, sempre presente com sorrisos e piadas, apareceu mais silenciosa, com a energia abatida, mas seguiu distribuindo alfazema, gesto que simbolizou cuidado, memória e resistência.
Comissão fortalece identidade cultural de Barra Grande

Toinho Sankofa, membro da comissão do Presente – Foto: Gilsimara Cardoso
A Comissão Organizadora do Presente de Barra Grande 2026 desempenhou um papel fundamental na manutenção e no fortalecimento dessa tradição que atravessa gerações na Ilha de Itaparica. Formada por Joel Azevedo, Enoilton Azevedo, Odenilson Azevedo, Itamar e Lu, José Renato, Adalberto Azevedo, Toinho Sankofa, Budião, Rose Nascimento, Orlando Monteiro, Ginaldo Cardoso, Val de Jarrinho e Rony, a comissão atuou de forma coletiva, responsável e comprometida com a história, a fé e a identidade cultural da comunidade.

Presente de Barra Grande 2026 – Foto: Oni Sampaio
Mesmo atravessada pela dor, a comunidade manteve o Presente vivo. Entre ausência e permanência, Barra Grande reafirmou que tradição também se sustenta na capacidade de seguir, juntos, apesar da saudade.
Sendo assim, o trabalho dedicado de cada integrante reafirma o Presente como um patrimônio vivo, construído a muitas mãos, e reforça o sentimento de pertencimento que mobiliza moradores, pescadores, famílias e visitantes.