Organização sem rigidez para atravessar tempos instáveis

Por Nazareth Reales

Foto: Acervo Pessoal

Há dias em que acordo e preciso de alguns segundos para me localizar: reconhecer a cidade, o clima, o som da rua, o aroma do ar. Nem sempre sei exatamente onde estou, mas quase sempre sei quem sou, o que estamos construindo e para onde estamos indo.

Essa certeza não vem da estabilidade do lugar. Ela vem do sistema que me sustenta.

Viajar de bicicleta, liderar a corporação Bikeagle, acompanhar a educação do meu filho, escrever um livro, sustentar uma relação afetiva e registrar estas crônicas não é resultado de uma força de vontade sobre-humana. Pelo contrário, é fruto de uma compreensão essencial: quando a vida está em movimento, não são as metas rígidas que sobrevivem, são os sistemas flexíveis.

Assim, mais do que resistir às mudanças, aprendi a criar estruturas que se adaptam a elas. E isso muda tudo.

Quando o movimento vira ruído

Foto: Acervo Pessoal

Neste mês, recebi várias mensagens com uma dúvida honesta: “Como você consegue fazer tudo isso viajando?”
As perguntas não vinham da admiração, mas do cansaço de quem sente que a rotina passa por cima. Falta foco e energia, requer uma estrutura que não aperte, mas que sustente.

Durante muito tempo, acreditei que ordem era sinônimo de controle. No entanto, a vida na estrada me ensinou o oposto: planejar é um gesto profundo de amor-próprio.

Foto: Acervo Pessoal

Quando tudo muda ao redor, não é o excesso de rigidez que ajuda, é a clareza do essencial. Ter um sistema não significa engessar a vida, mas criar pontos de apoio para quando o chão parecer instável.

Por isso, em vez de tentar controlar o dia, aprendi a organizar minha atenção. Em vez de exigir mais de mim, passei a estruturar melhor o que já existia.

Metas inspiram, sistemas sustentam

Foto: Nazareth Reales – Casa en Bici

As metas nos dão direção. Porém, é o sistema que nos permite voltar ao centro quando o caminho se torna incerto. Meu “centro de operações” é um Bullet Journal: um caderno que viaja comigo, se suja, se dobra e carrega marcas do percurso. Não é uma agenda bonita, é uma ferramenta viva para não me dispersar.

Para que esse sistema respire, aplico três pilares fundamentais:

Primeiro, pensar em trimestres. Planejar doze meses é irreal. Três meses é humano, mensurável e revisável.
Depois, priorizar áreas. Direcionar energia significa escolher, conscientemente, no máximo três áreas para fortalecer. Neste trimestre, são elas: espiritual, profissional e física.
Por fim, a cascata de ações. Grandes objetivos se desdobram em ações mensais, semanais e diárias. Se o caminho muda, a lista se ajusta. Sem culpa.

Assim, o sistema não me prende, ele me acompanha.

O ancoramento dos hábitos

Foto: Acervo Pessoal

Não controlo o clima nem as condições da estrada, mas controlo meus hábitos. Uso um rastreador diário para sustentar o mínimo necessário, buscando constância em vez de perfeição.

Ao final da semana, não me julgo. Ao contrário, me pergunto:
O que funcionou?
O quanto preciso ajustar?
Por que merece ser celebrado?

Esse exercício simples mantém minha autonomia emocional e me ajuda a seguir em frente sem peso excessivo.

Por isso, em fevereiro, quero abrir esse processo com você. Não como uma fórmula mágica, mas como uma experiência viva. Vou compartilhar quatro crônicas e vídeos para que você possa desenhar seu próprio sistema, um sistema que não exija mais de você, mas que permita simplesmente ser.

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