Sambadeira, matriarca e referência cultural, Claudete marcou gerações com alegria, resistência e compromisso com as tradições populares da Ilha de Itaparica

Por Gilsimara Cardoso

Presente de Barra Grande 2025 – Foto: Oni Sampaio

Na quinta-feira, 22 de janeiro de 2025, a Ilha de Itaparica viveu um dia de despedida. Aos 67 anos, morreu Claudete Santos, sambadeira, mãe, liderança comunitária e uma das maiores guardiãs da cultura popular da Ilha de Itaparica.

Nascida em 03 de outubro de 1958, Claudete construiu uma trajetória marcada pelo samba de roda, pela participação comunitária e pelo cuidado com as pessoas ao seu redor.

Desde cedo, Claudete escolheu a cultura como caminho. Onde havia roda, ela chegava. Onde o samba chamava, ela respondia com o corpo, a voz e o sorriso aberto. Assim, integrou e fortaleceu importantes expressões culturais da ilha, passando pelo Grupo Cultural Zé do Vale até o Samba de Roda Raízes da Gameleira, levando o nome de Vera Cruz para festas, encontros e celebrações populares.

Além disso, Claudete transformava qualquer espaço em território de alegria. Nos presentes tradicionais, especialmente no Presente de Barra Grande, a presença dela simbolizava festa, pertencimento e continuidade da tradição. Com ela, o samba nunca parava no passado, seguia vivo no presente.

Presente de Barra Grande 2025 – Foto: Oni Sampaio

Raízes familiares e força feminina

No entanto, a história de Claudete não se construiu apenas na cultura. Mãe de quatro filhas, ela enfrentou dificuldades, desafios e limitações impostas pela vida com coragem e firmeza. Criou as filhas com esforço diário, mas também com afeto, valores e ensinamentos que atravessam gerações.

Claudete com as filhas dela – Foto: Acervo pessoal

A filha Claudenice de Souza traduz essa dimensão afetiva com palavras que carregam memória e emoção:

“Falar da minha mãe é como se estivesse falando de uma pedra preciosíssima. Se eu falasse todas as doces e belas palavras, ainda assim não conseguiria descrever a pessoa maravilhosa que ela era. Muito amiga, companheira, sempre nos ajudou em tudo, até quando a gente não queria, mas mesmo assim ela fazia. Nos criou com muita luta, muita dificuldade, mas formou quatro guerreiras.”

Dessa forma, Claudete deixou como herança não apenas o samba, mas também mulheres fortes, conscientes de seu papel e comprometidas em manter vivo tudo o que aprenderam com a mãe.

Cultura, comunidade e permanência

Ao mesmo tempo, Claudete exerceu papel ativo na vida comunitária de Vera Cruz. Participativa, presente e respeitada, ela entendia a cultura como instrumento de união, cuidado e identidade coletiva. Por isso, sua atuação ultrapassava o palco e alcançava o cotidiano das comunidades.

Claudete com as filhas dela- Foto: Acervo pessoal

A filha Esmeraldina Maria resume esse legado com firmeza e orgulho. “Minha mãe deixou um grande legado em Vera Cruz, um grande exemplo de mulher, mãe, amiga, uma pessoa muito participativa na comunidade. “

Ainda segundo Esmeraldina, Claudete encarava a vida com alegria constante. Nada parecia pesado quando o samba começava. Não existia tempo ruim, apenas o tempo do encontro, da roda e da celebração.

Claudete com as filhas e netos dela – Foto: Acervo pessoal

A despedida e o legado que permanece

O Jornal Atualize acompanhou Claudete em momentos marcantes, como no Presente de Barra Grande, em fevereiro de 2025. E, no Festival Internacional de Grafite BTC – Bahia de Todas as Cores, em março de 2025, quando o samba de roda dialogou com as artes urbanas e reafirmou a força da tradição em novos espaços.

Por fim, a ausência deixa dor. Deixa o vazio do colo que não se repete, das broncas cheias de cuidado, dos gestos cotidianos que só o tempo ensina a valorizar. Ainda assim, permanece a certeza de que Claudete cumpriu sua missão.

“Foi chamada por Deus, mas seu legado aqui ficou. Cabe a nós, como filhas e herança dela, levar isso adiante”, afirma Esmeraldina.

Claudete Santos segue viva na memória, nas rodas de samba, nas festas populares e na identidade cultural da Ilha de Itaparica. Algumas mulheres não partem, elas se transformam em legado.

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