O ajuste interno: a voz com a qual percorremos o caminho

Por Nazareth Reales

Foto: Acervo pessoal

Depois de soltar o peso, o silêncio muda de forma.
Ele já não incomoda. Pelo contrário: abre espaço. Um espaço novo, onde deixamos de correr para começar a caminhar com presença. Onde o corpo encontra seu próprio ritmo e a mente, pouco a pouco, reduz o volume do ruído externo.

Nos capítulos anteriores, falamos sobre olhar com honestidade (Cap. 1), fazer um balanço real do que foi vivido (Cap. 2) e soltar o que deixou de ser essencial para seguir adiante (Cap. 3). No entanto, existe algo que não cabe nas alforjas e, ainda assim, define completamente a viagem: a forma como falamos conosco mesmos.

Porque toda viagem também é uma conversa interna constante. Uma narrativa silenciosa que acompanha cada subida, cada erro, cada conquista e cada pausa. Em uma subida longa, quando o cansaço aparece, não é o trajeto que pesa primeiro. É a voz interna. Aquela que sussurra: “não consigo”, “de novo a mesma coisa”, “isso é demais para mim”.

O caminho não muda quando essa voz surge.
Mas a experiência de atravessá-lo muda completamente.

Mudar o pensamento é mudar a experiência

Foi no meio do percurso que uma pergunta se impôs, quase sem pedir licença:
você já parou para pensar em mudar a sua forma de pensar?

Durante muito tempo, acreditamos que a mudança está sempre fora. Que, se o outro entendesse, se as circunstâncias fossem diferentes, se o ambiente mudasse… então tudo ficaria mais fácil. Esse é um dos erros mais comuns: acreditar que podemos mudar as outras pessoas.

Com o tempo, na estrada e na vida, aprendemos algo simples, porém desconfortável:
a única pessoa que posso mudar sou eu.

Quando essa compreensão chega, algo se organiza por dentro. Afinal, se sou eu quem pode mudar, também sou responsável pelo meu olhar, pelas minhas reações e pela minha narrativa interna. Essa narrativa constrói nosso sistema de crenças: aquilo que acreditamos ser possível, o que achamos que merecemos e como interpretamos o mundo ao nosso redor.

Mudar essa voz interna não acontece de forma rápida nem fácil. Exige trabalho diário, constância e compromisso ao longo da vida inteira. Afinal, desaprender o que repetimos para nós mesmos durante anos é muito mais difícil do que aprender algo novo. Ainda assim, trata-se do trabalho mais importante que podemos fazer.

A relação mais importante da nossa vida

Em determinado ponto do caminho, compreendemos algo essencial:
a pessoa mais importante da minha vida sou eu mesmo.

É comigo que acordo todos os dias, na minha companhia que passo cada hora. É com meus pensamentos que vou dormir. Quando começo a amar, valorizar, escutar, perdoar e deixar de julgar esse ser, a mim, a mudança acontece naturalmente. Não como técnica, mas como consequência.

Quando me aceito, passo também a aceitar melhor quem está ao meu redor. No caminho, isso se revela na forma como falamos quando estamos cansados, em como nos apoiamos nos dias difíceis e em como resolvemos os desacordos sem romper.

Somos resultado do ambiente em que crescemos. Das palavras que ouvimos, dos exemplos que seguimos e das histórias que nos contaram. No entanto, não estamos condenados a repeti-las. Para transformar a narrativa interna, precisamos alimentar a mente com referências novas.

Livros que expandem.
Áudios que acompanham.
Músicas que elevam.
Vídeos que inspiram.
Pessoas que somam.

Assim como escolhemos com cuidado o que levamos nas alforjas, aprendemos a selecionar o que deixamos entrar na mente e no coração. Não se trata de positivismo vazio, mas de consciência. De escolher, com intenção, o que consumimos emocional e mentalmente, e de nos cercar de conteúdos e vínculos que fortalecem a autoestima e estimulam o crescimento.

Ajustes internos de rota

Este capítulo não propõe mais um exercício. Ele compartilha alguns ajustes internos de rota, simples e cotidianos, que nos sustentaram ao longo do caminho:

Nossa vida não muda por acaso.
Ela muda quando muda a voz com a qual a habitamos.

Buscar uma história diferente repetindo os mesmos pensamentos é como pedalar com o freio acionado. O verdadeiro ajuste não está no caminho nem na bicicleta. Está em quem percorre a estrada.

E esse trabalho, difícil, constante e para sempre, começa quando assumimos a responsabilidade de mudar a nós mesmos.

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