Aos 70 anos, o Rei do Reggae emociona Salvador, afasta rumores de despedida e reafirma a música como resistência, consciência e esperança

Por Gilsimara Cardoso

Edson Gomes no Festival Virada Salvador 2025 – Foto: @mateusoross

A noite de domingo, 28, ganhou outro ritmo em Salvador. Logo no segundo dia do Festival Virada Salvador, o reggae ocupou o espaço, atravessou gerações e se transformou em voz coletiva com a chegada de Edson Gomes ao palco.

Ovacionado por uma multidão, o artista surge sorridente, inteiro, vibrante, e deixa claro, desde os primeiros acordes, que o show não representa um adeus, mas uma reafirmação de vida, luta e permanência.

Foto: Acervo Pessoal

Aos 70 anos, o Rei do Reggae dança, canta e dialoga com o público. A partir daí, a energia que emana do palco se espalha pela plateia, que responde em coro, transformando o espaço em um grande coral popular. Em cada canção, surgem mensagens de amor, denúncia, consciência social e resistência, composições que atravessam décadas e seguem atuais.

A apresentação atende a um desejo antigo dos fãs. Desde 2022, o público aguardava pela participação de Edson Gomes no Festival. Quando, finalmente, o artista pisa no palco, a resposta vem imediata. Aplausos, emoção e vozes erguidas em uníssono, reafirmando, mais uma vez, a força popular de uma obra que nunca perdeu o sentido.

Raquel Gomes, o amor que ilumina o palco e revela a felicidade de Edson

Raquel Gomes e Edson Gomes – Foto: Acervo Pessoal

Com certeza, o amor é contagiante. A noite carregou um significado íntimo e profundamente simbólico. No dia 28 de dezembro, Raquel Gomes, filha caçula de Edson Gomes, completou 21 anos, e a felicidade do Rei do Reggae parecia transbordar em cada gesto no palco. O sorriso largo, a leveza nos movimentos e o brilho no olhar alimentaram a percepção do público. Edson vive um momento de plenitude.

Quando ele chama a filha para dividir a cena e dança com ela diante da multidão, o amor se espalha como melodia. Não há discurso, não há palavra que explique. O afeto fala por si.

Raquel Gomes e Edson Gomes – Foto: Acervo Pessoal

Para Raquel Gomes, comemorar o aniversário com tantos convidados e, sobretudo, ao lado do pai, no palco do Festival Virada Salvador, se transforma em um marco de vida e memória. Em meio à multidão, ao som do reggae e sob os aplausos do público, ela define o momento como uma bênção. “Comemorar meu aniversário no show de meu pai no Festival da Virada foi emocionante. O melhor presente que Deus poderia ter me dado”, afirma Raquel.

A declaração sintetiza o sentido da apresentação. Mais do que um espetáculo musical, a cena revela um encontro de gerações, no qual o amor familiar se espalha pelo palco e contagia o público.

Quando o reggae fala, o povo responde. O manifesto de Edson Gomes

Edson Gomes no Festival Virada Salvador 2025 – Foto: @mateusoross

Durante o show, Edson Gomes faz duras críticas às desigualdades sociais e à exploração do trabalhador. Em tom contundente, o cantor afirma que os salários pagos à população são insuficientes e compara a realidade atual a um modelo de exploração histórica.
Esse salário que nós recebemos é muito pouco, é salário de escravidão. Eles querem que a gente seja sempre pobre para, quando ocuparem os palanques, nos usar e prometer que vão matar nossa fome e nos tirar da pobreza. Isso é lero lero”, declara.

Edson Gomes no Festival Virada Salvador 2025 – Foto: @mateusoross

Imediatamente, a fala provoca reação do público, que responde com aplausos e gritos de apoio. Na sequência, o artista amplia o tom crítico e denuncia práticas políticas que, segundo ele, mantêm o povo pobre para dominar, utilizam as pessoas em palanques e prometem inclusão apenas no discurso. Mais uma vez, a plateia responde. Nesse contexto, o reggae não funciona apenas como trilha sonora, atua como manifesto.

Já em coletiva de imprensa, após a apresentação, Edson Gomes comenta os rumores sobre um possível fim da carreira. Nesse momento, o discurso surge direto, firme e carregado de verdade, sem rodeios. “A gente tá crescendo, e quando cresce aparecem inimigos, pessoas que não querem que eu continue fazendo o que faço. Tentam me matar aos poucos”. Em seguida, ele esclarece, “clinicamente eu estou muito bem. Vou continuar nos palcos. Até o dia em que o Todo-Poderoso permitir, estarei cantando essa música de resistência e conscientização”.

Assim, aos 70 anos, Edson Gomes atravessa um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira. Dessa forma, consolida-se como referência absoluta da música brasileira e amplia ainda mais seu alcance ao confirmar participação no Lollapalooza, em São Paulo, no próximo dia 20 de março, prova de que a voz dele segue atual, necessária e cada vez mais potente.

A banda e o coro das ruas, o reggae que atravessa gerações

Nedson Augusto – Foto: Acervo Pessoal

Para Nedson Augusto, tecladista da banda de Edson Gomes, o show representa um reencontro esperado por anos entre o artista e o povo de Salvador. “Esse público aguardava há muito tempo por essa apresentação. As músicas de Edson são verdadeiros hinos da periferia”, afirma.

Além disso, Nedson destaca que a força do repertório se revela justamente na resposta coletiva. Crianças, jovens e idosos cantam cada letra em voz alta, sem distinção. “Elas representam o povo e atravessam gerações. Ver todo mundo cantando junto é muito emocionante”, completa. Ainda segundo o músico, “muitos fãs, inclusive, chegaram ainda no início da tarde para garantir um lugar próximo ao palco e viver intensamente cada momento”.

Foto: Acervo Pessoal

Nedson ressalta que as canções seguem profundamente conectadas com a realidade das comunidades, trazendo mensagens de amor, protesto, conscientização e resistência, exatamente como o reggae nasceu e permanece.

A primeira fã a chegar no Festival Virada Salvador

Yasmin da Guia, no Festival Virada Salvador – Foto: Acervo Pessoal

Para Yasmin da Guia, 24, a experiência no Festival Virada Salvador começou muito antes do pôr do sol. Ela foi a primeira fã a chegar ao evento, ainda às 14h30, e garantiu um lugar bem próximo ao palco. Era a primeira vez dela tanto no Festival da Virada quanto em um show de Réveillon. “Eu cheguei bem cedo, às 14h30. Como foi a minha primeira vez indo ao show da Virada, não sabia muita coisa, e um ambulante me ajudou e acabou me dando o acesso à festa, e acabei sendo a primeira. Foi as melhores!”, relata.

A emoção cresce quando ela vê o ídolo chegar ao palco. “Quando eu vi Edson chegando e já vindo dançando, com o sorriso no rosto, ver essa cena tão de perto me emocionou muito. Mostra o quanto ele tá forte e sempre pronto pra entregar o melhor”, afirma.

Segundo Yasmin, a energia do artista ficou evidente desde o primeiro instante. “Assim que ele entrou, notei isso de primeira. Ele estava muito animado, também foi a primeira vez dele no Festival da Virada, e espero muito que, depois desse show, coloquem ele em mais festivais… a Bahia também precisa do reggae”, completa.

Foto: Acervo Pessoal

Edson Gomes deixa o palco sob aplausos intensos. Assim, a apresentação se consolida como um dos momentos mais marcantes do Festival Virada Salvador. O Rei do Reggae reafirma o lugar dele como Lenda Viva da música brasileira e, ao mesmo tempo, comprova que segue em plena forma e deixa um recado claro ao público, enquanto houver voz, palco e povo, o show vai continuar.

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