Catadores do Projeto Rede Cooperação transformam experiência em referência nacional durante três dias de debates no maior encontro da reciclagem do país

Por Gilsimara Cardoso

Encontro com a Fundação Banco do Brasil – Foto: Acervo Pessoal

Direto de Cruz Alta, no coração do Rio Grande do Sul, para São Paulo. Cerca de 80 catadoras e catadores viajaram quilômetros para participar da 12ª Expocatadores. Eles se somaram aos 3.500 trabalhadores da reciclagem popular de todo o Brasil que, entre os dias 17, 18 e 19 de dezembro, fizeram da Expocatadores 2025 o maior encontro de catadores do país. Compartilharam as histórias, as lutas e, acima de tudo, a convicção de que a reciclagem transforma vidas.

Lidiana Jaques, na Expocatadores 2025 – Foto: Acervo Pessoal

No meio desse mar de gente, a experiência de Cruz Alta cresceu. Apareceu. Ganhou voz. Porque nasce da organização coletiva e se fortalece na união, em que coloca o catador no centro da mudança.

Cooperativa Únicca – Foto/ Divulgação

Há mais de dez anos, a Cooperativa Únicca coordena catadores de Cruz. No entanto a magia aconteceu quando a Unicca começou a coordenar a Rede Cooperação na região Centro do estado e passou a ser beneficiada com o Projeto Cataforte desenvolvido pela Fundação Banco do Brasil. Primeiro, veio o incentivo. Depois, veio a estrutura. Então, veio o reconhecimento.

A força da rede e o apoio do Cataforte

Enedina Silva, na Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso

Hoje, a rede reúne cerca de 300 catadoras e catadores, três associações e quatro cooperativas. A cooperada Enedina Silva, 59 anos, viu nisso um avanço claro. “Hoje a gente vê cada vez mais catadores participando, trazendo novidades, tecnologia social e se inserindo nas discussões. Eles estão buscando inserção, cobrando do poder público a valorização do trabalho”. Afirma.

Ela reconheceu também que o cenário na Brasil está mudando. “A cada ano a gente vê crescer o número de cooperativas e associações formalizadas. Ainda há muito a ser feito, mas esse trabalho vem evoluindo em termos de formalização, de debate e do catador ocupando o espaço e a importância que tem dentro da circularidade”. Ressalta Enedina.

Vagner Maydana , na Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso

A presença na Expocatadores também marcou a estreia da associação ACASMAR, de Júlio de Castilhos, RS. Para o presidente da Acasmar Vagner Maydana, tudo ali se tornou aprendizado e articulação. “Essa é a minha primeira Expo. Três pontos são importantes: o primeiro é a troca de experiências e vivências entre os catadores, levando em consideração a realidade de cada estado. O segundo ponto é o acesso às grandes empresas para possíveis parcerias futuras. É um diálogo importante; eu pude, por exemplo, conversar diretamente com a Prolata”. Ele ainda reforçou. “A compreensão que o catador passa a ter sobre a formalização e a importância das cooperativas”. Ressalta.

Galpão da ACASMAR – Foto: Vagner Maydana

Mas foi ao falar do Cataforte que a voz ganhou ainda mais força. Porque o projeto mudou a realidade da associação e da rede. Como ele mesmo resume: “em 2024 escrevemos o projeto na Cataforte da Fundação Banco do Brasil, o recurso veio em 2025, agora temos apoio com maquinário, veículo, EPIs durante dois anos”. A ajuda não é somente em equipamentos, ele também destacou a capacitação. “Agora temos apoio na formação dos catadores e, principalmente, visibilidade e respeito”. Assim, o Cataforte deixou de ser só política pública. Virou base, se transformou em ferramenta e garantiu a esperança do futuro prospero.

Do diálogo político ao reconhecimento nacional

Lidiane Jaques com Kleytton Morais – Foto: Gilsimara Cardoso

Dois encontros marcaram a participação do grupo. Em um deles, Lidiane Jaques dialogou diretamente com Kleytton Morais, da Fundação Banco do Brasil, sobre o Projeto Cataforte, reforçando a importância do apoio para estruturar as cooperativas e redes da reciclagem.

Vagner Maydana e Guilherme Boulos – Foto; Acervo Pessoal

Em outro momento, Vagner Maydana esteve frente a frente com Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, quando apresentou demandas, relatou desafios e compartilhou conquistas dos catadores gaúchos. “As demandas que apresentei representam a regional de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que abrange 32 municípios, incluindo a ACASMAR, de Júlio de Castilhos”, afirmou Vagner Maydana.

Vagner Maydana no Galpão da ACASMAR – Foto; Acervo Pessoal

Ao falar sobre os desafios da reciclagem nos municípios e a necessidade de fortalecer quem está na base do sistema, Vagner Maydana destacou que o avanço passa tanto pela mudança de comportamento da sociedade quanto pelo apoio do poder público. “A conscientização das pessoas é fundamental, assim como a importância de cuidar bem dos resíduos sólidos, para que possamos preservar o planeta Terra. Também é importante que os municípios deem mais atenção às cooperativas, às associações e aos catadores individuais. E, acima de tudo, é preciso desburocratizar as ações”, afirmou.

Lidiane Jaques – Foto: Gilsimara Cardoso

A cada conversa e a cada troca, a experiência de Cruz Alta ganhava força. Mostrava que a reciclagem no Brasil nasce da persistência, do trabalho diário e da organização de quem coleta, separa e transforma o que a sociedade descarta.

Fortalecidos pelo Projeto Cataforte, os catadores gaúchos demonstraram que é possível construir um modelo solidário, sustentável e replicável.

Expocatadores 2025 – Foto: Maycom Mota

Assim, ao final da 12ª Expocatadores, entre os 3.500 catadoras e catadores que participaram do encontro, Cruz Alta saiu como referência, com a certeza de que investir em catadores é investir em soluções reais para a crise climática e para a justiça social. Porque, quando o catador ocupa o centro da narrativa, o futuro da reciclagem começa a se desenhar.

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