No Anhembi, comunicadores populares dão voz a catadoras e catadores e registram a esperança com o pacote de medidas que beneficiará a categoria.
Por Gilsimara Cardoso

Foto: Bruno Capão
Na última sexta-feira (19), o Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, se transformou em território de esperança para milhares de famílias que vivem da reciclagem no Brasil.

Foto: Marcos Chicano
Durante a 12ª edição da ExpoCatadores 2025, o presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva assinou três decretos e lançou o PRONAREP- Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular, marcando um novo capítulo na história das catadoras e catadores do Brasil.

Expocatadores 2025 – Foto; Gilsimara Cardoso
Mais de 3.500 catadoras e catadores, vindos de cerca de 600 cooperativas e associações de todas as regiões do país, acompanharam o anúncio das medidas que instituem diretrizes no Plano Plurianual para a reciclagem popular, a Política Nacional de Circularidade de Bens Móveis e o Sistema Nacional de Economia Solidária.
No papel, são políticas públicas. Na prática, a esperança de dignidade e reconhecimento para quem sempre esteve à margem.
Investimentos, tecnologia e reconhecimento social

Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso
Nesse contexto, o PRONAREP, coração do pacote anunciado, nasce com a missão de modernizar galpões, garantir equipamentos, ampliar a coleta seletiva e promover formação técnica. Para que o trabalho diário das catadoras e catadores se converta em renda justa e em melhores condições de vida.

Equipe da Fundação Banco do Brasil – Foto: Marcos Chicano
Além disso, o pacote conta com a Caixa Econômica Federal entre as principais operadoras e com o apoio de parceiros como a Fundação Banco do Brasil, que inovou ao fortalecer não apenas a reciclagem popular, mas também ao incluir a comunicação popular na cobertura do evento.
O PRONAREP mobiliza R$ 143 milhões em investimentos, reforçando o compromisso com o fortalecimento das cooperativas em todo o país.

Foto: Maycom Mota
Foi anunciado também o Cataki.gov, aplicativo nacional de coleta seletiva que promete aproximar a população de quem vive da reciclagem. Encurtando caminhos entre quem descarta e quem transforma.
Por fim, o governo incluiu a categoria no Minha Casa, Minha Vida para Catadores. Acenando para o sonho da moradia digna e para a construção de um futuro com mais segurança e pertencimento.
Números que reforçam a urgência do cuidado com quem recicla

Foto: Maycom Mota
De acordo com estimativas do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), a categoria pode chegar a cerca de 800 mil catadoras e catadores em todo o Brasil.
Diante desse cenário, o pacote de medidas apresentado na ExpoCatadores representa um pequeno avanço no reconhecimento de quem, mesmo na informalidade, sustenta mais de 90% da reciclagem dos resíduos sólidos do país.

Foto: Marcos Chicano
O volume de recursos ainda se mostra insuficiente para garantir, de forma orgânica, a dignidade de todas as catadoras e catadores do Brasil. Por isso, existe a necessidade de mobilização das indústrias por meio da prática da logística reversa.
Entenda sobre a logistica reversa com Luiz Gonzaga, gerente de soluções da Fundação Banco do Brasil
Mecanismo que responsabiliza fabricantes, distribuidores e comerciantes pelo retorno dos produtos e embalagens após o consumo. Garantindo que esses materiais tenham destinação ambientalmente adequada.
Além disso, torna-se fundamental o engajamento da gestão municipal para reconhecer e integrar a reciclagem como peça crucial na política de gestão de resíduos.
Assista a entrevista com o Procurador do Cidadão no Distrito Federal
“Que chegue lá na ponta”, o olhar de quem recicla
A fala traduz o sentimento que ecoa na ExpoCatadores, ‘esperança’.

Vagner Maydana, na Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso
Para Vagner Maydana, catador de resíduos e presidente da Associação ACASMAR, do Rio Grande do Sul, o anúncio representa conquista, mas também responsabilidade. “Esse pacote é uma grande vitória para nós, mas só vai mudar de verdade a vida dos catadores se for colocado em prática. Nossa preocupação é que essas políticas cheguem aos municípios, às cooperativas lá na ponta. É lá que a vida acontece”, afirmou Vagner.
A fala traduz o sentimento que ecoa na ExpoCatadores, ‘esperança’, mas também vigilância e compromisso para que as medidas saiam do papel. Assim, mais do que políticas públicas, os decretos e programas lançados simbolizam a possibilidade real de alcançar centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras que, por décadas, permaneceram invisibilizados. Transformando a celebração em compromisso.
Comunicação popular em destaque com o TMB na articulação

Comunicação popular na cobertura da Expocatadores 2025 com o apoio da Fundação Banco do Brasil – Foto: Acervo Pessoal
Além dos anúncios, a ExpoCatadores foi palco do fortalecimento da comunicação popular. Um dos destaques foi a atuação da equipe articulada pelo Território Mídias Brasil (TMB), em parceria com a Fundação Banco do Brasil, reunindo comunicadoras e comunicadores vindos diretamente dos territórios para narrar o evento a partir de olhares periféricos.
Entre eles esteve Gilsimara Cardoso, do Jornal Atualize (Ilha de Itaparica – BA), que produziu textos e entrevistas durante a cobertura e destacou a presença da mídia popular no maior encontro mundial de catadoras e catadores.

Maycom Mota, na cobertura da Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso
O trabalho contou com a articulação de Maycom Mota, diretor de comunicação da Dois Neguin Filmes (Zona Sul – SP), responsável pela cobertura audiovisual do TMB. Para ele, ocupar esses espaços é estratégico. “Poder articular dentro de um ambiente historicamente destinado a outros grupos, ao lado de parceiros da quebrada, com a proposta de ampliar acessos que geram renda para comunicadoras e comunicadores populares, é rico demais. Esse espaço também é nosso”. Ressalta.

Marcos Chicano, na cobertura da Expocatadores 2025 – Foto: Maycom Mota
Para o fotógrafo Marcos Chicano, que integrou a cobertura, a experiência foi marcante e inédita. É a primeira participação dele em um evento desse porte, ele destacou a dimensão do encontro e o impacto pessoal da vivência. “Foi a primeira vez que participei de um evento daquela magnitude. Uma experiência única para mim. Que em 2026 venham mais! Quero agradecer: que equipe maravilhosa a nossa”, afirmou.

Bruno Capão, na Expocatadores 2025 – Foto: Kleytton Morais
Outro olhar importante foi o de Bruno Capão, comunicador e catador, convidado pelo TMB para trazer a perspectiva de quem vive a reciclagem no dia a dia. “Saio com outra visão desse encontro. Quero passar o que vi e aprendi para muitos que, como eu, estão começando na reciclagem, mostrando o caminho da luta para conquistar dignidade”, relata Bruno.
Comunicar de dentro para fora, a comunicação popular que acreditamos

Comunicação popular na cobertura da Expocatadores 2025 – Foto: Acervo Pessoal
Para mim, como jornalista que atua na comunicação popular, esta cobertura na ExpoCatadores 2025 marca um antes e um depois. Deixo de lado todas as reportagens que vivi apenas como leitora, aquelas protagonizadas pelos grandes veículos da mídia tradicional. Tidas como referência e moldadas, muitas vezes, pelos critérios noticiosos construídos dentro das grandes redações. Aqui, escrevo a partir de outro lugar. Estou finalizando esta matéria consciente de que um novo modelo de comunicação popular está por vir.

Gilsimara Cardoso com catadores de Rondônia na Expocatadores 2025- Foto: Acervo Pessoal
Chego a este texto ainda emocionada pela experiência de uma cobertura feita de dentro para fora, em uma linha horizontal, construída coletivamente, ouvindo, dialogando e compartilhando. Foi assim que narramos a ExpoCatadores 2025, não como quem observa de longe, mas como quem vive o território, sente as histórias e transforma cada encontro em notícia.
“Não chegamos ali para disputar vaidade, mas, sobretudo, para afirmar que a comunicação popular não é menor”

Jornal Atualize , na Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso
Ver o Jornal Atualize ocupar esse espaço, lado a lado com veículos nacionais, foi simbólico e potente. Ainda assim, não chegamos ali para disputar vaidade, mas, sobretudo, para afirmar que a comunicação popular não é menor. Pelo contrário, naquele momento, não nos sentimos pequenos; ao contrário, sentimos que éramos os maiores. Afinal, carregávamos conosco a força dos territórios, das comunidades e das vozes que quase nunca chegam ao centro do debate público.

Fundação Banco do Brasil com a comunicação popular – Foto: Acervo Pessoal
Volto para a Ilha de Itaparica com anseios, falas, aprendizados e esperança. Volto, sobretudo, acreditando ainda mais que é possível democratizar a informação no Brasil, construir narrativas plurais e garantir que quem vive a realidade também possa contá-la com autonomia, dignidade e protagonismo.

Cecília Figueira, Ciça, do TMB – Na Expocatadores 2025 – Foto: Gilsimara Cardoso
O Território Mídias Brasil faz parte essencial dessa história. Foi ponte que estreitou caminhos, abriu acessos e mostrou, na prática, que fortalecer a comunicação popular é fortalecer a própria democracia.
Levo comigo a certeza de que essa experiência não termina aqui. Ela segue nos territórios, nas redações improvisadas e na luta diária para que comunicar continue sendo um direito, e não privilégio.

Foto; Gilsimara Cardoso
PS. Além disso, não podia faltar essa mulher, a loira de cabelos longos e cacheados. Ela é incrível e, sobretudo, articula com sensibilidade e firmeza todos os propósitos do TMB. Por fim, esta fotografia fica registrada como memória de um momento que, certamente, dará origem a uma outra história.
Parabéns pelo seu corre muito foda.
opa !!! Nós fizemos juntos.
Muito boa matéria, completa. Parabéns Gil, parabéns equipe TMB e FBB, uma semente boa de regar é essa 🙂 Bora!