Capítulo 5: Sem novos personagens, apenas substantivos: Paciência, Perseverança e Sabedoria pela BR-242
Por Nazareth Reales

BR-242 -Foto: Nazareth Reales
Saímos de Itaberaba com a intenção de alcançar a Chapada Diamantina.
À nossa frente, a BR-242: uma rodovia temida por ciclistas e pensada para tudo, menos para uma bicicleta familiar. Sabíamos disso. Ainda assim, decidimos tentar. Porque, se tem algo que aprendemos nessa travessia, é que vale a pena tentar, mesmo quando tudo ao redor parece dizer que aquele não é o seu lugar.
Nosso trajeto foi assim: deixávamos para trás a Caatinga, com seu calor extremo e paisagem desafiadora.

BR-242- Foto: Nazareth Reales
À medida que nos aproximávamos de Itaberaba, o terreno se tornava mais montanhoso, sinalizando que os desafios não diminuiriam. Na entrada da cidade, após quatro horas de pedal, encontramos um espaço esportivo e cultural, onde também funciona uma sede do CRAS. Em busca de apoio para passar algumas noites na cidade, fomos até a prefeitura. A resposta foi negativa: “A cidade, por ser pequena, não conta com a infraestrutura necessária para acolhê-los.” Mas aquela tarde não foi perdida. Compartilhamos com crianças da comunidade a nossa história e oferecemos uma pequena apresentação de futebol freestyle.
BR-242, rumo incerto à Chapada Diamantina

BR-242- Foto: Nazareth Reales
Na primeira noite, dormimos na quadra de futebol. No dia seguinte, percorremos a cidade, mas não encontramos um lugar adequado para descansar. Decidimos pagar uma noite em uma pousada para recuperar as forças, sabíamos que a BR-242 exigiria tudo de nós.
E assim foi. No dia seguinte, começamos a pedalar por ela. Desde os primeiros quilômetros, sentimos a dureza da rodovia: caminhões intermináveis, carros em alta velocidade, calor sufocante e uma topografia implacável. Não há espaço para hesitar, não há pausas, não há lugar para a fragilidade. E, mesmo assim, lá estávamos nós: de bicicleta, em família, avançando no ritmo do coração, não do relógio.
Foram dois dias de pedal intenso para cobrir pouco mais de 50 km entre Itaberaba e Amparo. No meio do caminho, encontramos uma pequena comunidade, na entrada para Tupim, onde decidimos parar, comer, descansar e esquecer, por algumas horas, a intensidade do dia. Mas o descanso teve seu preço: ao cruzar uma trilha para dormir, os pneus se encheram de espinhos. Perdemos um pneu. Nada que não pudesse ser consertado, mais um lembrete de que a estrada não perdoa.
Desafios no caminho

BR-242- Foto: Nazareth Reales
O segundo dia foi ainda mais desafiador. Nosso objetivo era chegar até Amparo, que no mapa aparecia como um povoado maior, onde poderíamos nos reabastecer. Mas, depois de várias horas de tensão e alerta, o cansaço venceu. O calor era insuportável. O risco, constante. Então, tomamos uma decisão: esticar o polegar e pedir uma carona. Esperamos. Observamos. Tentamos. Mas não conseguimos. Tivemos que seguir pedalando.

BR-242- Foto: Nazareth Reales
Com medo e exaustos, finalmente chegamos. O melhor lugar que encontramos para dormir foi, literalmente, a dois metros da BR-242. Uma noite como nenhuma outra: o rugido dos caminhões foi a trilha sonora do nosso descanso.
No dia seguinte, a decisão era clara: só continuaríamos se alguém, com disposição no coração e espaço no veículo, nos oferecesse um transporte.
Essa estrada não é só asfalto. É uma metáfora.
É preciso avançar sem cessar.

BR-242- Foto: Nazareth Reales
Assim como a BR-242 foi feita para caminhões e urgência, o sistema também nos oferece uma única via: rápida, competitiva, sem margem para parar ou errar. Ensinam-nos que é preciso chegar primeiro, produzir mais, avançar sem cessar.
Mas nós escolhemos outra via. Escolhemos pedalar. Mover-nos com o que temos. Aprender em família. Educar no caminho. Construir comunidade a cada passo. Nossa via é alternativa, imperfeita, por vezes incerta… mas profundamente humana.
Não sabemos se vamos alcançar a Chapada. Pelo menos, não hoje. Mas isso também faz parte do caminho que escolhemos: a incerteza como parte da viagem, a confiança como motor.
Talvez ainda não tenhamos chegado. Talvez o próximo capítulo ainda esteja sendo escrito. Mas, se há algo que essa jornada nos ensina, é que resistir à via imposta também é uma forma de construir.
Não se trata apenas de chegar.
Trata-se de escolher o como.
E mesmo que ainda não tenhamos todas as respostas, sabemos: outra via é possível… e já estamos trilhando por ela.