Festival BTC 2026 fortalece o grafite como expressão de identidade, resistência e transformação social

Por Gilsimara Cardoso

Festival Internacional de Graffiti BTC – Foto: Gilsimara Cardoso

O Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC) reuniu artistas de diversas partes do mundo e reafirmou a arte urbana como uma potente ferramenta de transformação social e cultural.

Realizado entre os dias 26, 27, 28 e 29 de março, o festival ocupou Salvador com cores, narrativas e identidade, transformando a cidade em um verdadeiro museu a céu aberto.

Além disso, a programação espalhou intervenções artísticas por diferentes territórios, aproximando comunidades e artistas em uma troca direta, viva e carregada de significado.

Nesse cenário, o BTC fortalece não apenas o graffiti, mas também o sentimento de pertencimento e valorização cultural.

Assista a entrevista com Sky Zoinky

Entre os destaques internacionais, o evento contou com a presença de Sky Zoinky, vindo de Honolulu, Havaí. O artista deixou a marca dele na comunidade de Massaranduba e no muro oficial do festival, localizado no Terminal da Barroquinha. Ao mesmo tempo, vivenciou sua primeira experiência no Brasil, destacando a conexão com o território e com as pessoas.

Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC), Mutirão – Foto: Gilsimara Cardoso

No cenário nacional, o artista Fábio Graf trouxe para Salvador a força simbólica da natureza. Em Massaranduba, ele pintou um martim-pescador inspirado em uma experiência pessoal, incorporando à obra elementos dos “Guardiões da Amazônia”, conectando arte, memória e meio ambiente.

Sobre o processo criativo, Fábio explicou, “Cerca de 15 dias antes de vir para a Bahia, eu estava realizando um trabalho quando um pássaro apareceu dentro da minha mala de tintas. Ele estava machucado e, como o espaço era uma academia grande, cheia de espelhos, ele tentava sair e acabava batendo repetidamente.

Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC), Mutirão – Foto: Gilsimara Cardoso

Eu consegui pegá-lo, levei para fora, ajeitei o biquinho dele, que estava entortado, dei um pouco de água e ele se recuperou e seguiu. Esse encontro me marcou muito, fiquei encantado com a beleza dele, que lembra um beija-flor. Quando cheguei ao mutirão, ainda não tinha uma ideia do que pintar, e foi aí que lembrei desse momento. Dentro do meu trabalho, desenvolvo uma linha chamada ‘Guardiões da Amazônia’. Onde sempre trago um animal da fauna com um portal em seu corpo, representando a flora, a água, o céu e o sol. Então esse pássaro passou a ser esse portal da Amazônia, levando essa mensagem para onde a obra estiver.”

Protagonismo local, impacto social e a força coletiva do BTC

Festival Internacional de Graffit BTC, Muro Oficial- Foto: Gilsimara Cardoso

Enquanto artistas de diferentes partes do mundo desenhavam nos muros, o público também marcou presença com nomes importantes da cena. Entre eles, o grafiteiro Noite, considerado uma lenda do graffiti na Bahia, por transformar prédios altos em grandes murais.

Octa dando entrevista no Festival Internacional de Graffit BTC 2026 – Foto: Oni Sampaio

Além dele, o evento contou com artistas como Brizze, Octa, Azzi, Brisa da Noite e VeioART, entre outros grandes nomes que ampliaram a diversidade estética e criativa do festival.

Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC), Salvador – Foto: Gilsimara Cardoso

O BTC gerou movimentação econômica e grande repercussão. Porque toda a cadeia produtiva foi impactada, fornecedores, funcionários públicos, comerciantes, moradores, incluindo pessoas em situação de rua, artistas e equipes de produção.

Conexão ao vivo direto do muro. Arte, desafio e novas perspectivas.

Meikilo no Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC), Mutirão – Foto: Gilsimara Cardoso

Durante a cobertura especial em parceria com o Território Mídias Brasil, o artista Leonardo Bispo, conhecido no grafite como Meikilo, protagonizou um momento marcante ao realizar uma transmissão ao vivo diretamente do muro oficial do BTC, no Terminal da Barroquinha.

Live no Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC) – Foto: Gilsimara Cardoso

Mesmo com a dificuldade de acesso, por se tratar de uma estrutura vertical, ele utilizou o próprio celular para mostrar cada detalhe das obras. Além disso, natural de Salvador, o artista reforçou o poder transformador da arte ao destacar as oportunidades que ela proporciona. “O grafite é um portal, uma escola com novas perspectivas para conquistar, que nos traz novos horizontes.”

Ao mesmo tempo, o Território Mídias Brasil, reconhecido como a primeira rede nacional de mídias de comunicação popular, fortaleceu a comunicação comunitária e independente dentro do evento.

A transmissão da live aconteceu em parceria com o Jornal Atualize e a UBqub, ampliando o alcance e a visibilidade do festival.

Marielle Franco é homenageada no BTC

Pintura de Ster Silvania no Muro Oficial, Festival Internacional de Graffiti (BTC) – Foto: Gilsimara Cardoso

Além disso, o festival evidenciou a participação feminina, reforçando a presença e o protagonismo das mulheres na arte urbana. Nesse contexto, vale destacar a homenagem da artista Ster Silvania à Marielle Franco, cuja imagem ganhou destaque no muro oficial do evento.

Para a realização da obra, a artista utilizou a técnica do Extensio, amplamente aplicada no grafite para reproduzir imagens em grande escala com precisão. Essa técnica consiste na ampliação de um desenho previamente elaborado, permitindo que detalhes e proporções sejam mantidos mesmo em superfícies extensas, como fachadas e grandes murais. Dessa forma, o resultado final combina impacto visual com fidelidade artística, potencializando a força simbólica da homenagem.

História, resistência e um festival feito por artistas

Equipe do Festival Internacional de Graffiti Bahia de Todas as Cores (BTC) – Foto: Gilsimara Cardoso

O Festival Internacional de Grafite BTC encerrou mais uma edição marcada pela potência da arte urbana e pela conexão com os territórios de Salvador. Ao longo de quatro dias, o evento promoveu exibições, mesas de debate, vivências de pintura, encontros formativos e grandes shows gratuitos, ampliando o acesso à cultura.

Diversos momentos vividos traduzem aquilo que move o festival: tinta no muro, arte, troca, intercâmbio, educação, cuidado, acolhimento, resistência, ocupação, amizade e incentivo.

Esse crescimento contínuo só acontece graças à força coletiva do Vai e Faz, que há cerca de 10 anos atua, até então de forma voluntária, para tornar cada edição histórica. E, também com apoio financeiro do Fundo de Cultura, via Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e Governo do Estado da Bahia, além da FUNARTE.

Fica a dica para prefeitas e prefeitos baianos

Já são oito edições, mais de 5 quilômetros de muros pintados e cerca de mil artistas participantes voluntários. Além disso, o BTC adota um formato itinerante: a cada ano acontece em Salvador e, no ano seguinte, segue para o interior da Bahia, ampliando seu alcance e impacto cultural.

Até a publicação dessa matéria, a próxima cidade ainda não foi anunciada, o que abre espaço para uma reflexão importante e também uma oportunidade estratégica para gestores públicos.

Portanto, fica a dica para prefeitas e prefeitos de municípios baianos. Levar o BTC para as cidades significa investir em cultura com poucos custos e grande transformação. Movimentando a economia local, fortalecendo a identidade dos territórios e promovendo inclusão social por meio da arte.

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