Hábitos e energia para não parar
Por Nazareth Reales

Nazareth Reales e o pequeno Thomas – Foto: Acervo Pessoal
No capítulo anterior, desenhamos o Mapa dos 90 Dias. Você já definiu o rumo, organizou metas por áreas e abriu o caderno. Agora surge a pergunta que separa quem sonha de quem realiza: como sustentar o fôlego todos os dias, mesmo quando o vento sopra contra?
Ter um mapa orienta. Contudo, ter energia para percorrê-lo transforma.
Muita gente enxerga o sucesso como uma linha de chegada. Nós, depois de um ano e meio cruzando estradas desde a Colômbia em nossa @casaenbici, aprendemos outra coisa: sucesso nasce de um processo contínuo de ajuste. Ele não brilha num pódio; ele amadurece na rotina.
Em “Hábitos Atômicos“, James Clear afirma: “Você não alcança o nível das suas metas; você cai ao nível dos seus sistemas”. Essa frase ecoa cada vez que lembramos do primeiro pedal, há nove anos, quando percorri apenas 60 km saindo de Bogotá. Na época, eu não imaginava que aquela pequena decisão me levaria a atravessar seis países e dez estados do Brasil.
Não houve salto épico. Houve repetição. Houve constância. Pequenas ações diárias acumularam força, como juros silenciosos que trabalham enquanto ninguém vê.
Identidade: A Raiz de Toda Transformação
Primeiro, precisamos responder a uma pergunta decisiva: quem você escolhe se tornar?
Resultados seduzem. Processos organizam. Entretanto, identidade consolida.
- Resultado: “Quero dar a volta ao mundo.”
- Processo: “Vou pedalar todos os dias.”
- Identidade: “Sou atleta. Sou alguém que ama desafios físicos.”
Quando a identidade muda, o hábito deixa de parecer obrigação. Ele vira expressão natural. Por isso, Thomas, aos cinco anos, não “estuda” por imposição. Ele se reconhece como um menino que escreve o próprio diário e pedala ao lado dos pais. Desde os dois anos, dedicou uma hora diária à leitura e ao movimento. Assim, a repetição construiu caráter.
Além disso, o ciclo do hábito funciona como bússola cotidiana. Para instalar uma prática na rotina, de viagem ou de vida, percorremos quatro etapas:
- Sinal (torne óbvio): deixamos capacetes e alforjes prontos na noite anterior. O olhar reconhece, o cérebro ativa.
- Desejo (torne atraente): buscamos companhia de quem cultiva os mesmos valores. Participar do Fórum Mundial da Bicicleta, em Brasília, fortaleceu nossa missão coletiva na Bikeagle.
- Resposta (torne simples): aplicamos a regra dos dois minutos. Se a tarefa parece enorme, reduza. Thomas não quer escrever? “Escreva apenas uma linha.” O essencial consiste em manter viva a identidade.
- Recompensa (torne satisfatório): celebre o avanço. O cérebro precisa sentir que venceu.
O Rastreador de Hábitos: Combustível Visual

Foto: Nazareth Reales
Criamos então nossa ferramenta central: o Rastreador de Hábitos.
No Bullet Journal, desenhamos uma tabela simples. A cada dia cumprido, marcamos um X. Parece modesto. Contudo, funciona por três razões claras:
- O espaço vazio cobra ação.
- A sequência de X cria uma corrente difícil de quebrar.
- O registro entrega satisfação imediata.
Além disso, adotamos rituais mínimos sustentáveis. Existem dias de 100 km. Também existem dias de 10. Às vezes lemos um livro inteiro; em outras ocasiões, apenas uma página. Ainda assim, executamos pelo menos 1%. Se pedalamos cinco quilômetros, mantemos o hábito vivo.
Quando o caminho endurece, protegemos nossa energia. O maior risco não é o fracasso; é o tédio. Por isso, ajustamos o sistema à personalidade. Se algo trava, não culpe sua capacidade. Reavalie o método.
Considere cinco dimensões que moldam o comportamento humano:
- Abertura à experiência (curiosidade ou prudência).
- Responsabilidade (organização ou espontaneidade).
- Extroversão (reserva ou sociabilidade).
- Amabilidade (cooperação ou firmeza).
- Neuroticismo (sensibilidade ou estabilidade).
Cada pessoa ocupa um ponto nesse espectro. Logo, alinhe seus hábitos às suas inclinações naturais. Assim, o esforço flui.
Plano de Resgate e Caminho para o Final
Na Bikeagle, seguimos dois compromissos simples.
Primeiro: nunca falhe duas vezes. Perdeu um dia? Retome no seguinte. Um deslize ensina; dois constroem retrocesso.
Segundo: revise e reflita. Ao fim de cada etapa, perguntamos: o que funcionou? O que aprendemos? Estamos vivendo com intenção?
Agora, crie sua própria ferramenta de poder.
Abra o Bullet Journal numa página limpa.
Escreva no topo: RASTREADOR DE HÁBITOS.
Na coluna esquerda, numere os dias do mês com a inicial correspondente (1-L, 2-M…). Na linha superior, registre dois ou três hábitos centrais, os átomos que sustentam suas metas trimestrais.
Todas as noites, antes de dormir, marque o X do dia. Essa pequena cerimônia noturna reforça compromisso.
Finalmente, lembre-se: o Registro Diário organiza tarefas; o Rastreador valida constância. Para consolidar qualquer prática, confirme quatro pontos: torne-a visível, desejável, simples e gratificante.
A melhoria não acontece num evento isolado. Ela cresce no cotidiano.
No próximo capítulo, desceremos da bicicleta, entraremos na barraca e faremos contas claras.
Capítulo 9- A Auditoria do Coração
Você aprenderá a:
- Fechar o mês com clareza emocional.
- Administrar finanças com simplicidade.
- Verificar se seus sistemas honram seu propósito.
Mover-se importa. Entretanto, compreender o motivo importa ainda mais.
Nos encontramos no último trecho dessa jornada.