Cortejo às águas reafirma resistência religiosa, continuidade ancestral e força comunitária, em 2026 Matheus Lima realiza o Presente com o apoio de outros terreiros
Por Gilsimara Cardoso

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
No último domingo, 22 de fevereiro, o Presente das Águas, conhecido pela comunidade como o Presente de Matheus, saiu mais tarde esse ano, acompanhando a maré. Reafirmando uma tradição que ele mantém há sete anos na comunidade de Tairu, na cidade de Vera Cruz, Ilha de Itaparica.

Matheus Lima – Foto: Gilsimara Cardoso
Homem preto, 29 anos, de olhar firme e encorajador e sorriso sempre receptivo, Matheus representa a força da juventude que assume a responsabilidade de manter viva a ancestralidade.
Entretanto, em 2026, ele quase desistiu.
A exaustão tomou conta.

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Oni Sampaio
Foi o próprio Matheus Lima quem revelou esse momento de fragilidade, de forma sincera e humana. Um homem forte e guerreiro, que também sente cansaço, que chora e que reconhece quando a rotina está pesada.
“O desânimo tomou conta, não estava com muita disposição para organizar a festa. Meus irmãos me cobraram porque já estava em cima da hora, faltava pouco tempo para a data da festa. Como já tínhamos um grupo de WhatsApp, pediram para que eu colocasse no grupo tudo o que seria preciso para a realização do evento. Digitei tudo direitinho. Um escolheu o balaio, outro escolheu a talha e assim sucessivamente até completar os itens necessários. Daí eu senti aquele empurrão. Os grãos, que são preparados nas comidas votivas, sempre ficam por minha conta. Comprei.”

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Oni Sampaio
Matheus trabalha em Salvador, enfrenta uma jornada longa todos os dias. E, ainda assim, há sete anos realiza o Presente das Águas com recursos próprios, apoiado pela comunidade e pelos povos de terreiro.
O que falta não é compromisso.
O que falta é acesso

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Editais e políticas culturais que deveriam alcançar quem está no território nem sempre chegam a quem mais precisa, muitas vezes por ausência de informação, orientação e inclusão real.

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Oni Sampaio
Matheus não tem equipe técnica, não tem assessoria para inscrever projetos, não vive da cultura institucionalizada. Ele vive a cultura no território. “Enquanto um arrumava a mesa do café da manhã, outro ia passando uma roupa, lavando um banheiro, limpando o espaço. Porque axé não é só a beleza das danças e dos toques. Também é o silêncio dos afazeres, das rezas, das madrugadas perdidas, do cansaço. Mas principalmente para ver que todo trabalho valeu a pena. Família, amigos, irmãos de santo de diferentes casas, unidos para celebrar a grande mãe das Águas. Respeitando as doutrinas do ambiente e da casa de onde são. Enviei carta aos moradores, a minha família inteira colaborou. Eu e meus irmãos de santo descemos para a Feira de São Joaquim várias vezes para comprar tudo.”

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
A fala de Matheus revela algo maior do que a organização de uma festa. Revela que o amor e a união também estão no trabalho invisível, no cuidado coletivo, na disciplina e no respeito. E também, não menos importante, que a manutenção da festa requer investimentos.

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
O Presente contou com apoio da Prefeitura Municipal de Vera Cruz. No entanto, foi a própria comunidade que sustentou grande parte da realização. Mãos negras, mãos de fé, mãos de território.
União como resposta histórica

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Existe um texto atribuído a Willie Lynch que descreve uma suposta estratégia utilizada durante a escravidão para dividir pessoas negras por cor, idade e condição física, criando rivalidades internas com o objetivo de enfraquecer levantes e impedir a formação de quilombos. Embora historiadores apontem que o documento provavelmente seja uma farsa produzida no século XX, ele se tornou, ainda assim, símbolo de algo historicamente real. De fato, a desunião sempre foi, e continua sendo, uma ferramenta de dominação. Por isso, o debate em torno desse texto não se limita à sua autenticidade, mas ao que ele representa simbolicamente: a lógica estrutural de fragmentação como mecanismo de controle social.

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
E é justamente contra essa lógica que o Presente de Matheus se levanta.
Os negros foram libertos oficialmente pela Lei Áurea, mas não plenamente emancipados. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 garante dignidade, igualdade e liberdade religiosa a todos os cidadãos brasileiros, sem distinção. No entanto, esses direitos ainda precisam ser defendidos e reafirmados cotidianamente.

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Quando o povo preto se une para celebrar sua religião, para organizar um festejo, para proteger um irmão ou manter viva uma tradição, essa união diminui os impactos históricos da escravidão e fortalece a emancipação real.
Fé, natureza e resistência

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
Durante o cortejo até a praia, flores, arranjos e gestos de carinho marcaram o caminho. O ritual contou com a presença de caboclos ligados à terra e à natureza, reafirmando a forte relação do candomblé com os povos originários e com o cuidado ambiental.
Diante de Iemanjá, todos são filhos. Todos são dignos. Todos são reis e rainhas.

Meirejane Lima – Foto: Gilsimara Cardoso
O Presente das Águas não é apenas um ritual sagrado. É, sobretudo, um encontro de corpos, histórias e ancestralidades que resistiram ao tempo.
Assim, ele se afirma como um espaço de memória viva, identidade e continuidade cultural. Por isso, Meirejane Lima sintetiza, emocionada, a força e o significado desse momento. “A religião de matriz africana representa isso, a união, a coletividade. Todos estamos aqui juntos, festejando e celebrando essa energia, pedindo paz para o mundo, pedindo força, festejando a vida. Sobrevivemos. Chegamos aqui com muita força e resistência.”

Presente das Águas, Tairu, 2026 – Foto: Gilsimara Cardoso
O Presente de Matheus 2026 foi mais do que uma celebração religiosa. Foi um quilombo simbólico erguido à beira-mar. Foi a prova de que, quando o povo preto decide caminhar junto, o desânimo perde força.
Se a desunião foi articulada como estratégia de enfraquecimento, a união continua sendo a maior ferramenta de resistência.

Bastidores do Presente de 2026 – Foto; João Victor
E em Tairu, ela segue viva…
Graças a essa união:
Ilê Axé Opô oluwo Ogum Meje – Parque são Paulo, Lauro de Freitas
Casa de Oyá – Jambeiro, Lauro de Freitas
Ilê axé Odé Omin – Misericórdia, Itaparica
Ilê Asé Obá Inan – Liberdade, Salvador
Ilê Asé Dolomim de Oyá – Itaparica
Unzo Mutá Eusé – Caixa d’água, Salvador
Ile Asé Obá Agodô I’Onan Oyá – Ilhota
Terreiro Ode kassimicongo – Sao Francisco do Conde