Rapel e tirolesa transformam um dos cartões-postais da Ilha de Itaparica em experiência de superação, liberdade e conexão com a natureza
Por Gilsimara Cardoso

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Afinal de contas, quem não gostaria de olhar a Ponte do Funil de um ângulo melhor? Vista de longe, ela já impressiona. De perto, impõe respeito. No entanto, é quando o corpo se desprende do chão e fica pendurado sob sua estrutura que o cenário ganha outro significado, mais intenso, íntimo e, acima de tudo, desafiador.
Ali, não há paisagem comum. O olhar percorre de cima para baixo e de baixo para cima. O vento bate no rosto, o silêncio se rompe pelos gritos de apoio, “vai, continue, você consegue”, e pela respiração acelerada. Mas ali habita, sobretudo, a coragem. Ou a ausência momentânea dela.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Oni Sampaio
Quando o participante iniciante chega na barra de proteção da ponte, atravessa para o lado externo e se prepara para a descida, o corpo reage antes mesmo da mente decidir. Os braços enfraquecem, as pernas tremem e o frio na barriga se impõe. Nesse instante, surge o dilema inevitável: “Eu vou ou eu desisto? Escuto o instrutor e solto a corda, ou eu volto para cima da ponte? ”

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
O único passo possível é confiar no equipamento, confiar no instrutor e se lançar. No entanto, para a mente humana instintiva, confiar e relaxar nesse momento não é algo imediato. O corpo resiste, a razão hesita, e o medo tenta assumir o controle antes que a coragem encontre espaço para agir.
Contudo, Luiz Afonso, instrutor da Alcateia Vertical, rompe o silêncio em tom firme e tranquilo: “Solte o corpo, está seguro. Solte a corda.”
Segurança: a base que sustenta a coragem

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Para que essa experiência aconteça de forma responsável, a segurança ocupa papel central. Iniciar no mundo do rapel exige não apenas coragem, mas também uma seleção adequada de equipamentos e acompanhamento profissional. Cordas, mosquetões, descensores e cintos de segurança formam o conjunto essencial para a proteção do praticante.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Por trás de cada descida segura, existe uma série de cuidados técnicos que fazem toda a diferença. A escolha da corda, por exemplo, não é aleatória: ela precisa atender às normas de segurança exigidas para esse tipo de atividade.
No caso da tirolesa, a corda K12 é a mais indicada. Isso porque oferece alta resistência, maior durabilidade e suporte adequado ao peso do usuário. Além disso, todos os equipamentos passam por revisões constantes, são certificados e ajustados corretamente ao corpo de cada participante. Somam-se a isso a checagem prévia do percurso, as orientações antes da descida e o monitoramento durante toda a atividade, um conjunto de ações que transforma o medo inicial em confiança e garante uma experiência segura, com respeito à vida e à natureza.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Já no rapel, o cuidado também começa pela escolha do equipamento. O recomendado é o uso de cordas semi-estáticas, de baixa elongação, que oferecem mais controle e estabilidade durante a descida. Nesse caso, o diâmetro ideal varia entre 10 mm e 11,5 mm, garantindo um bom equilíbrio entre resistência e facilidade de manuseio.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Por fim, essas cordas precisam contar com certificações reconhecidas, como a norma europeia EN 1891 (Tipo A), ou atender às exigências da NR35 e da NBR 16710, voltadas ao uso profissional em acesso por corda. O material mais indicado é a poliamida, com capa e alma trançadas, o que assegura alta durabilidade e uma carga de ruptura superior a 22 a 25 kN.
O medo não vai embora, ele ensina

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Oni Sampaio
Ainda assim, o medo não desaparece. Ele permanece, mas muda de lugar. Deixa de paralisar e passa a orientar. Quem enfrenta a descida uma vez, quase sempre volta.
A exclusividade do ângulo, a sensação de liberdade e o contato direto com a natureza criam uma experiência que ultrapassa o esporte. Trata-se de um reencontro com os próprios limites, um exercício de confiança e entrega.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Para quem vive a rotina entre paredes e telas, os esportes de aventura surgem como um respiro necessário. Herbert Menezes, arquivista e membro do grupo Alcateia Vertical, explica. “A natureza ajuda a manter a sanidade mental. O rapel e a tirolesa são uma forma de olhar o mundo diferente. Você aprende a respeitar mais a natureza e a compreender melhor o lugar onde está.”

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
Assim, a Ponte do Funil deixa de ser apenas um ponto de passagem entre territórios. Ela se transforma em cenário de superação, contemplação e descoberta. Uma experiência ao mesmo tempo inclusiva, por acolher quem nunca praticou esporte de aventura, e exclusiva, por oferecer uma perspectiva reservada a quem ousa atravessar o medo.
A força das mulheres no rapel da Ponte do Funil

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
A presença feminina também se destaca no rapel da Ponte do Funil, reafirmando que coragem e protagonismo não têm gênero. Entre as mulheres que desafiaram a altura e o medo, Letícia Correia se destaca pela experiência e pelo entusiasmo. “Já fiz várias vezes e vale a pena. Vale a pena porque é viciante. Quem nunca fez, venha, porque depois não para nunca mais”, afirma.
A fala traduz não apenas a superação individual, mas o incentivo coletivo que muitas mulheres levam para o esporte de aventura, ocupando espaços historicamente vistos como desafiadores e mostrando que a liberdade também se conquista em suspensão, corda por corda.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
É dessa forma que a Alcateia Vertical constrói, na Ilha de Itaparica, mais do que atividades esportivas. Constrói vivências. Impulsiona coragem. E constrói novas maneiras de enxergar o mundo, mesmo quando ele está logo abaixo dos nossos pés.
Como participar das atividades da Alcateia Vertical

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
A Alcateia Vertical é um grupo formado por pessoas que praticam esportes de aventura e buscam, por meio dessas atividades, conexão com a natureza, superação de limites e vivências coletivas. Fundada em 2023, a iniciativa atua principalmente com rapel, tirolesa e trilhas, reunindo praticantes de diferentes perfis e níveis de experiência. Luiz Afonso, nativo da Ilha de Itaparica, é o instrutor responsável pelo grupo e coordena as atividades com foco na segurança, na orientação técnica e no respeito ao meio ambiente. Tornando a prática acessível tanto para iniciantes quanto para quem já tem familiaridade com os esportes de aventura.

Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Gilsimara Cardoso
A programação das atividades é divulgada no Instagram @alcateia_vertical, onde o grupo compartilha o calendário anual dos eventos, realizados a cada dois meses. Para participar, é necessário o pagamento de uma taxa de inscrição.
Esse investimento é fundamental para garantir a qualidade e a segurança das experiências oferecidas, já que envolve a manutenção constante dos equipamentos, a reposição de materiais, a logística das atividades e o suporte da equipe especializada.
“Para participar, basta acompanhar nossa página no Instagram, escolher a atividade desejada e realizar a inscrição pelo link na bio do @alcateia_vertical ou pelo WhatsApp (71) 98420-4643. Um dia antes do evento, nossa equipe envia todas as orientações necessárias, além de uma lista com os itens que cada participante deve levar”, explica Luiz.
Confira aqui com exclusividade a agenda das atividades de 2026

Luiz Afonso, Projeto Alcateia Vertical na Ponte do Funil – Foto: Oni Sampaio
A programação de atividades de 2026 segue com encontro marcado para o dia 22 de março, na Cachoeira do Paredão, em Santo Amaro. Em maio, o grupo retorna ao município para uma atividade na Cachoeira Araçás. Já no mês de julho, a agenda avança para a Cachoeira de Muritiba, em Muritiba. Em setembro, Santo Amaro volta a integrar o calendário com a ação na Toca do Lobo, e o encerramento da agenda acontece em novembro, na Torre do CIA, no município de Camaçari, reforçando o compromisso com experiências que unem esporte, natureza e conexão entre diferentes regiões do estado.